Entrevista:O Estado inteligente

quinta-feira, novembro 15, 2012

Mais um recuo - CELSO MING



O Estado de S.Paulo - 15/11


A prévia do PIB medida pelo Banco Central por meio do Índice de Atividade Econômica (IBC-Br) acusou forte retração em setembro: 0,52% em relação a agosto (veja o gráfico).

Não faz sentido a alegação de que essa derrapada surpreendente foi gerada pela falta de quatro dias úteis em setembro. O calendário deste ano já estava previsto desde a sua instituição, pelo papa Gregório XIII, em 1582.

Tem mais a ver com a irregularidade da produção industrial, que oscila de acordo com os estímulos temperamentais do governo. Em agosto, por exemplo, deveriam terminar as isenções de IPI para veículos e aparelhos domésticos, depois renovadas até dezembro. O consumidor antecipou as compras em agosto e as reduziu em seguida. Mas isso não explica muito.

A baixa reação da indústria é fato sobejamente comentado, não precisa ser repisado. Dá para dizer que os números bastante negativos de setembro não devem se repetir tão cedo. Mas ainda não dá para garantir a robustez do sistema produtivo com que conta o governo nos meses seguintes e, principalmente, em 2013.

Este ano acaba com nível de incerteza maior do que em 2011. O Banco Central recita o mantra de que a convergência para a meta de inflação, de 4,5%, será obtida em qualquer momento de 2013, "ainda que de forma não linear". Mas há dúvidas de que essa aposta se cumpra.

O mercado de trabalho vai na contramão da redução de custos de produção. Mesmo que o próximo reajuste do salário mínimo não seja de 14,1%, como em 2012, a falta de mão de obra deve elevar a remuneração do trabalho. Se, neste ano, o PIB cresce menos de 1,5% e há pleno emprego, é inevitável que, com avanço do PIB acima da reposição demográfica do mercado de trabalho, esse fator se acentue.

Também jogam contra o controle da inflação a necessidade de reajustes dos preços dos combustíveis e a tendência à alta da cotação do dólar (desvalorização do real) - veja o Confira. O Banco Central reconhece, ainda, que a política fiscal do governo é expansionista. Ou seja, despesas públicas sobem acima do PIB - um dos fatores que contribuíram para a atual esticada dos preços. O governo promete que, em 2013, cumprirá sem os truques conhecidos a meta do superávit primário de 3,1% do PIB. É o mesmo que foi dito tantas vezes ao longo do ano.

Enfim, o próprio Banco Central deixou de ancorar as expectativas. Nenhuma instituição de peso projeta a convergência da inflação para a meta em 2013. A pesquisa Focus, que ausculta semanalmente cerca de 100 instituições, aponta projeção média de 5,4% no ano que vem.

Além de terem desarrumado a casa, as mexidas no tripé da economia (câmbio flutuante, meta de inflação e superávit primário de 3,1% do PIB) agravaram a incerteza. O Banco Central e o ministro Guido Mantega descarregam a maior parte da responsabilidade pelo baixo avanço e pela inflação acima da planejada na piora da crise externa e nas políticas perdulárias dos grandes bancos centrais. É desculpa sem pé nem cabeça. Rússia, México, Chile, Indonésia, Coreia do Sul e África do Sul são emergentes que terão avanço do PIB superior ao do País e inflação menor. E, no entanto, a crise atinge a todos. Alguns com mais virulência do que o Brasil.

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