Entrevista:O Estado inteligente

terça-feira, dezembro 15, 2009

Celso Ming - É a superpoupança


O Estado de S. Paulo - 15/12/2009
O governo brasileiro obteve a informação sigilosa de que o índice de poupança da China não corresponde a apenas 43% do PIB, número por si só espantoso, como está na tabela. É ainda maior, de nada menos que 51%. Apenas para comparar, o índice de poupança do Brasil se mantém estagnado em torno dos 19% do PIB.


Com um nível de poupança tão impressionante, a China pode dar-se ao luxo de subsidiar suas exportações, por meio da superdesvalorização do yuan (a moeda chinesa), e de dispensar investimentos estrangeiros - ou de só receber os que quer. Mais do que isso, pode amontoar reservas externas (comprar moeda estrangeira), que hoje alcançam US$ 2,3 trilhões, sem que para isso o Banco do Povo da China (banco central) precise esterilizar moeda. Uma explicação: quando o Banco Central do Brasil compra dólares, tem ao mesmo tempo de retirar do mercado os reais usados para pagar essas compras por meio da venda de títulos públicos, de maneira a evitar que produzam inflação. O banco central chinês dispensa essa operação porque possui grande flexibilidade monetária proporcionada pela forte poupança.

Qualquer um sabe que o trabalhador chinês ganha mal. Os números variam, mas o assalariado-padrão ganha menos de US$ 100 por mês (R$ 174 pelo câmbio de ontem). Ele consegue guardar mais da metade do que ganha, em primeiro lugar porque a cultura asiática empurra nessa direção. Além disso, conta com alguns benefícios distribuídos pelo Estado: aluguel subsidiado, certa porção de arroz, assistência médica mínima e ensino básico. Mas o chinês médio está forçado a economizar porque não conta com os benefícios da poupança social. Dos filhos se espera sempre que amparem os pais na velhice. Também não tem à sua disposição assistência médica avançada nem ensino superior gratuito. Trabalhador que não poupa o máximo está fadado a não ter muito futuro na vida.

O sistema não se esgota aí. Na China não há sindicatos nem movimentos trabalhistas organizados. O empregador não enfrenta pressões irresistíveis para reajustar salários nem está obrigado a aumentar suas despesas com encargos sociais ou passivos trabalhistas. O custo da mão de obra está entre os mais baixos da Ásia. Por isso, o produto chinês tem altíssima competitividade quando comparado aos do resto do mundo e pode chegar barato a quaisquer mercados.

Em praticamente todos os fóruns de Assuntos Econômicos que acontecem no Brasil se levantam economistas que se põem a recomendar a adoção do modelo chinês. Que o governo brasileiro desvalorize corajosamente sua moeda e encoraje mais as exportações - sugerem.

No entanto, com o arranjo que temos, não há a menor possibilidade de avançar por aí. Para isso, seria necessário acabar com o modelo consumista que temos e com os mecanismos distributivistas do governo. Seria preciso achatar salários, aposentadorias e pensões; restringir fortemente o consumo; eliminar encargos sociais e direitos trabalhistas; e, compreensivelmente, ter um governo duro, disposto a reprimir qualquer movimento de protesto.

O sistema econômico brasileiro não é nem especialmente bom nem especialmente ruim. É o resultado das opções feitas.

Confira

Nada a concluir - Não dá para tirar nenhuma conclusão relevante a partir do déficit de US$ 4 milhões na balança comercial (diferença entre exportações e importações) na segunda semana de dezembro.

Mas, ninguém se iluda, o forte crescimento econômico do Brasil previsto para 2010 deve aumentar o consumo interno, reduzir o excedente exportável e aumentar as importações.

Este ano, um saldo comercial entre US$ 24 bilhões e US$ 25 bilhões parece assegurado. Mas em 2010 a queda será de mais de 50%. O mercado projeta um saldo de apenas US$ 11,3 bilhões (Pesquisa Focus).

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