Entrevista:O Estado inteligente

terça-feira, agosto 25, 2009

Rubens Barbosa Reflexões sobre crise econômica

O ESTADO DE S PAULO
Num mundo de grandes transformações políticas, econômicas e comerciais, que desafiam projeções futuras, o cenário internacional vem se modificando fortemente nas últimas duas décadas.

No campo político, podem ser identificadas mudanças geopolíticas, como, em especial, a emergência da China, da Rússia, da Índia, do Brasil e o deslocamento do centro de gravidade dos assuntos internacionais do Atlântico para o Pacífico. No campo econômico, apesar da forte expansão do ciclo econômico e comercial, estávamos vivenciando três crises: financeira (crise no setor imobiliário, problemas no setor bancário nos EUA), energética (volatilidade do preço do petróleo) e de alimentos (escassez e alta nos preços das commodities).

No meio dessas transformações, eclodiu a crise econômica, com a recessão nas economias desenvolvidas da Europa e dos EUA e a redução significativa do crescimento da China e dos países emergentes. Em consequência disso, ocorreram, de maneira dramática, a rápida restrição ao crédito e a queda no emprego e no intercâmbio comercial global. O fracasso da Rodada Doha e o incremento das tendências restritivas nos países desenvolvidos, a começar pelos EUA, podem tornar a situação ainda mais complexa.

A economia mundial deverá contrair-se, pela primeira vez, desde o fim da 2ª Grande Guerra. Algumas estimativas chegam a prever um crescimento negativo de mais de 2,5% em 2009. A quase totalidade dos países, nos cinco continentes, foi afetada. Os EUA deverão ter um crescimento negativo no corrente ano, acompanhados, em grau mais acentuado, pela Europa. Dos países emergentes, a China - que se transformou num dos principais fatores de crescimento da economia global e já é a segunda potência comercial -, em 2009, deverá crescer ao redor de 8%, não podendo desempenhar sozinha o papel de motor da demanda global, sobretudo de commodities, como vinha ocorrendo nos últimos anos. A Índia terá um crescimento positivo, mas inferior ao da China. A Rússia e, em menor escala, o Brasil deverão ter crescimento negativo.

O comércio internacional, segundo a Organização Mundial de Comércio (OMC), terá sua maior queda desde 1982, com contração de cerca 12%. A forte redução da demanda, aliada à restrição do crédito, é responsável pela rápida e dramática queda das transações.

Para agravar a situação, começam a aparecer sinais inquietantes de nacionalismo financeiro e protecionismo comercial, tanto entre os países desenvolvidos quanto no contexto dos países em desenvolvimento, como vimos recentemente com as medidas restritivas tomadas pela Argentina.

Em vista da situação crítica da economia, os países do G-20, na reunião de abril, comprometeram-se a não aumentar as barreiras ao livre comércio até 2010 e a tentar minimizar as dificuldades atuais por meio de medidas de política fiscal e apoio ao setor financeiro. US$ 250 milhões, em dois anos, deverão ser alocados para apoio ao financiamento do comércio e todos assumiram o compromisso de alcançar ambiciosa e equilibrada conclusão da Rodada Doha.

As perspectivas para a economia mundial são pouco otimistas para os próximos anos. A situação vai piorar, antes de melhorar, a partir do fim de 2010. Embora estejam surgindo sinais positivos de recuperação da economia global, o que está ocorrendo é apenas uma desaceleração da queda, e não a volta do crescimento. A crise econômica está longe de terminar. Há um problema estrutural que necessita ser enfrentado: o desequilíbrio entre os países superavitários (China, Alemanha) e os deficitários (em especial os EUA).

A recuperação será lenta e ainda dependente do crescimento da economia dos EUA. A China, com crescimento sensivelmente reduzido pela queda de seu comércio exterior, terá pouca influência na recuperação da economia global.

As perspectivas para o comércio global também não são animadoras. Em 2009, contrariando as intenções manifestadas no G-20, 47 países, inclusive 17 membros desse grupo, aplicaram algum tipo de medidas protecionistas. Com a redução do intercâmbio, a recuperação do crescimento das trocas internacionais vai depender do grau da recessão dos países desenvolvidos e da desaceleração da queda do crescimento dos países emergentes e em desenvolvimento. O comportamento da economia chinesa e dos preços das commodities continuará a ser um fator de incerteza. A tendência ao protecionismo e a ausência de perspectiva de retomada das negociações da Rodada Doha acrescentam mais elementos de instabilidade no comércio internacional.

Como ficarão a economia e o setor externo brasileiros nesse difícil contexto internacional?

A economia, em 2009, deverá crescer entre zero e menos 1%, graças ao dinamismo do mercado interno, estimulado por medidas de ampliação do crédito para aumentar o consumo em setores estratégicos. No próximo ano, o governo projeta um crescimento de cerca de 4%, o que poderá mostrar-se excessivamente otimista, dado o quadro externo global.

Os números do comércio exterior brasileiros em 2009 não são encorajadores. O setor agroindustrial estima uma redução de cerca de 20% no valor exportado. A exportação do setor manufatureiro cairá mais de 30%. Prevê-se uma queda de cerca de 20% nas exportações e uma redução ainda maior das importações, gerando, como consequência, uma redução do superávit na balança comercial. É difícil prever o montante do saldo apenas com os resultados do primeiro semestre, pela volatilidade do câmbio, dos preços das commodities e pela incerteza quanto à queda das importações.

É com esse pano de fundo econômico que transcorrerá o ano político-eleitoral de 2010.

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