Entrevista:O Estado inteligente

quinta-feira, abril 23, 2009

Alberto Tamer -Recessão vai piorar. Brasil resiste



O Estado de S. Paulo - 23/04/2009

Fundo Monetário Internacional (FMI) acabou com a ilusão de que a recessão está recuando. Não se deixou levar por sinais de leve desaceleração do seu ritmo, não aceitou a ideia de que o pior já passou, que "está piorando menos" ou "mais lentamente". Não. Está piorando mais e vai continuar assim nos próximos meses, afirma a instituição. O Produto Interno Bruto (PIB) mundial deve cair 1,3% neste ano.


Entre todos os países, somente China e Índia vão crescer em torno de 6%. Os países do Oriente Médio são exceção, mesmo assim, registrando retração por causa do preço do petróleo. O PIB dos Estados Unidos terá uma queda de menos 2,8%. Mais grave, muito mais grave mesmo, é que a economia da zona do euro vai continuar mergulhando na recessão com o PIB caindo este ano 4,2%. É o único grupo que não dá qualquer sinal de recuperação em 2010.

GRANDE RECESSÃO

Resumindo, como disse Paul Volcker, estamos vivendo não a Grande Depressão, mas uma grande recessão.

Trágico? Ainda não. Apenas desanimador. A economia mundial e o sistema financeiro sairão dessa crise mais encolhidos, a economia crescerá menos por longo tempo e as pessoas, em geral, terão mais dificuldade de manter seus padrões de vida e de consumo.

Em uma frase, o mundo vai ficar mais pobre.

Vão sofrer mais os países menos desenvolvidos e mais pobres, que já sofreram antes, e menos os países desenvolvidos que causaram tudo isso. Eles têm mais condições para atenuar os efeitos econômicos e sociais da recessão. Injusto? Sim. Muito injusto. Eles prometem corrigir isso, pensando não tanto em corrigir as injustiças, mas em preservar seus mercados. Prometeram na reunião dos G-20, em Londres, no começo do mês, um dinheiro que não existe e que poucos entre eles, estão dispostos a criar.

SE ELES CRESCEREM...

Mas, dirá o leitor, se os países ricos crescerem, as economias menores serão beneficiadas! Porém, há aqui um grande e problemático "se". Com exceção de Estados Unidos e China, os outros não estão fazendo muito para sair da recessão. Só os dois - e o Brasil com o pouco do seu peso - estão aplicando uma intensa e ousada política fiscal que tende a recompor o consumo e a demanda. Se os países desenvolvidos afinal saírem da recessão em 2010, os menores somente serão beneficiados lá pelo meado ou fim do ano. Vai ser tarde.

E querem saber de uma coisa? O Fundo Monetário Internacional, a ONU e o Banco Mundial mostram que os países emergentes é que estão impedindo uma recessão mundial ainda mais profunda. Eles ainda estão crescendo 1,6% neste ano, enquanto o PIB dos G-7 e outros mais industrializados, vai cair nada menos que 3,8% neste ano.

BRASIL NÃO ESCAPA

Sim, não escapa. Mas vamos sofrer menos. A coluna já analisou essa questão várias vezes. Mostrou que as medidas financeiras e fiscais adotadas pelo governo, logo no início da crise, estão permitindo atenuar o impacto externo.

O Fundo Monetário Internacional prevê uma queda de 11% no comércio exterior, uma perda de US$ 4,1 trilhões no sistema financeiro que vai precisar de, pelo menos, mais US$ 870 bilhões ou US$ 1 trilhão para voltar a alguma espécie de normalidade. O crédito externo vai continuar escasso e, nesse cenário, o Produto Interno Bruto brasileiro deve recuar 1,3%, prevê o Fundo. Geralmente, eles não têm errado muito nas suas previsões e poderão estar tristemente certos novamente.

A NOVA RODADA

Um fato animador, neste momento, é que a equipe econômica tem mostrado calma e realismo em face da crise. As recentes reduções de impostos levaram a um aumento de 21% nas vendas dos produtos da linha branca. A Caixa Econômica Federal anunciou reserva de até R$ 2 bilhões para financiar o comércio.

Os financiamentos de carro aumentaram consideravelmente sem falar do setor imobiliário, também beneficiado indiretamente pela redução de impostos. Tudo isso eleva o padrão de vida e de consumo da população, que pode comprar mais.

SACRIFÍCIO DE GERAÇÃO

Mas isso vai provocar uma queda da arrecadação ou, como disse outro dia um leitor, pessoalmente, está sacrificando a próxima geração! Certo? Errado.

Se essas medidas permitirem manter algum crescimento, a arrecadação voltará a aumentar no próximo ano. Quanto à próxima geração, a dos nossos filhos, acreditem, ela será consideravelmente mais sacrificada se a economia mergulhar fundo na recessão neste e no próximo ano. Poderiam ser filhos de pais desempregados que não os pode educar bem para a vida.

E ENTÃO?

É a pergunta de sempre que o leitor faz ao terminar a coluna. O que vai acontecer? Quem disse que sabe, está enganado ou mentindo.

Grande parte do que vai acontecer aqui, neste ano, dependerá da evolução da crise exterior, mais de 60% do Produto Interno Bruto e do comércio mundial, da movimentação de capitais, hoje escassos.

Então, vamos sofrer sim, mas esse sofrimento poderá ser suavizado se o governo persistir na política que o governo vem adotando no momento, de manter a liquidez do sistema financeiro, de incentivar a demanda e o emprego sem temer queda do superávit fiscal e, até mesmo, déficit por algum tempo. E isso apesar do horror dos economistas ortodoxos para quem a recessão parece "menos grave" que o desajuste temporário das contas públicas. Um desvio dessa ordem só se torna mais grave com um grande aumento na dívida pública em relação ao PIB, o que não está acontecendo.

O fio de esperança é que a equipe econômica, pelo menos até agora, está seguindo essa linha. Vamos ter recessão, sim, mas tudo indica que, aos nos voltarmos para mercado interno, estamos nos preparando melhor para enfrentá-la.

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