Entrevista:O Estado inteligente

sábado, novembro 08, 2008

O fenômeno Obama

Obama, a resposta

Em 21 meses de campanha, o presidente eleito dos
Estados Unidos, Barack Obama, foi testado e provocado
por seus oponentes – e também adulado e protegido pela
imprensa. Aos ataques e à bajulação, reagiu com dignidade.
Mostrou talento incomum e ideais nobres. Sua vitória reafirma
o poder americano de renovar o país e surpreender o mundo


André Petry, de Nova York

David Guttenfelder/AP

ESTRÉIA SÓBRIA
Obama, em Chicago, diante de 250 000 pessoas, logo após o anúncio de sua vitória: discurso sereno e elogios ao adversário



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Nesta reportagem

Quadro: Como votaram os americanos

Na galeria dos presidentes americanos, há dois Adams, dois Franklins, três Georges, quatro Williams, cinco James e dezenas de outros sobrenomes anglo-saxões de quatro costados, como Jackson ou Grant. Com a eleição da última semana, a lista passará a incluir um exotismo inimaginável até há pouco: um sujeito com um nome africano (Barack), um sobrenome árabe (Hussein) e outro bastante popular em uma tribo queniana (Obama). Barack Hussein Obama tomará posse como o 44º presidente dos Estados Unidos, o primeiro negro a ocupar o cargo mais poderoso do mundo. Há 143 anos, ele seria propriedade de um senhor de escravos. Há 54 anos, suas filhas, Malia e Sasha, 10 e 7 anos, não poderiam se matricular em uma escola freqüentada por brancos. Há 47 anos, quando Obama nasceu, negros não podiam votar nem ser votados. Daqui a dois meses, no dia 20 de janeiro, a família Obama vai-se mudar de Chicago para o centro de Washington, onde passará a morar na Avenida Pensilvânia, número 1600 – o endereço da Casa Branca. As crianças ganharão o cãozinho de estimação que tanto querem, e já há apostas: as meninas vão para escola pública ou privada?

A eleição de Obama, que ganhou 53% dos votos populares, contra 46% de seu adversário, John McCain, é excepcional pela energia que deflagrou, pelo entusiasmo que despertou nos Estados Unidos, de Nova York a Los Angeles, de Chicago a Miami, pela vibração desencadeada no mundo todo (veja reportagem). E, claro, pela cor, pela cor de sua pele, a de uma minoria negra em um país criado e governado por brancos, que nunca se sentiu totalmente confortável com a presença dos descendentes de escravos trazidos à força para o trabalho braçal da lavoura no sul do país. A convivência foi dolorosa para os negros e moralmente destrutiva para os brancos. O conflito racial faz parte da história americana (veja reportagem). A vitória de Obama também é excepcional pelo que ele é – pelo que carrega na memória, no sangue, na carne. Obama descende da África, nasceu na América, morou na Ásia. Seu pai, que estudou economia nos EUA, era um negro da tribo dos luos, do Quênia, ferrenhos rivais dos quicuios. Sua mãe, antropóloga fascinada pelos camponeses da Ilha de Java, era uma branca do interior do Kansas. Sua meia-irmã, Maya Soetoro-Ng, nasceu em Jacarta, na Indonésia, casou-se com um chinês nascido no Canadá e mora no Havaí. Obama é o fruto desse caldeirão multicultural. Ele recita de memória, sem sotaque, as primeiras linhas do Corão dos muçulmanos. Acha a prece dos islâmicos um dos sons mais belos que se podem ouvir ao cair da tarde. Nasceu em Honolulu. Morou em Jacarta. Estudou em Harvard. É um "Ph.D. em diversidade", como diz o professor Helio Santos no artigo da página 88. Vai presidir os Estados Unidos da América, a nação militarmente mais poderosa, culturalmente mais influente e economicamente mais pujante e imitada do planeta.

Elise Amendola/AP

ADEUS ELEGANTE
McCain, com a mulher, Cindy, em Phoenix, no Arizona, ao reconhecer a derrota: "Obama era meu oponente, agora é meu presidente"

Sua biografia não chama a atenção pelo que tem de ultrapassado ou deslocado, mas pelo que tem de contemporâneo. Impensável um Obama eleito presidente dos Estados Unidos há duas décadas – ou há uma. Obama tem uma trajetória só possível agora, no mundo globalizado e politicamente correto, que superou o colonialismo, as guerras mundiais, a Guerra Fria e o Muro de Berlim. É filho do nosso tempo. Só Obama, tão múltiplo na sua origem e no seu destino, poderia receber, em tom de quase intimidade, cumprimentos de gente tão desigual quanto o presidente da Indonésia, Susilo Bambang Yudhoyono (que lembrou a "especial afeição" dos indonésios pelo eleito), o presidente do Quênia, Mwai Kibaki (que decretou feriado nacional para comemorar), e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (para quem Obama também provou que "a esperança é mais forte que o medo"). De Jacarta a Brasília, de Washington a Nairóbi, todo mundo busca uma identidade com Obama. Muito se disse sobre a semelhança entre a ascensão de Lula, o primeiro presidente de origem humilde do Brasil, e a de Obama, o primeiro negro eleito presidente dos Estados Unidos. As diferenças são intransponíveis.

Shaw Thew/EPA/Corbis

DAMAS EM CENA
Michelle Obama e Jill Biden, a mulher do vice-presidente, saúdam eleitores em Chicago logo depois da vitória: com estilista de uma Kennedy

A comparação seria possível se Lula tivesse nascido na Ilha de Marajó, filho de um angolano com uma sexóloga de Cuiabá, tivesse morado em Bangcoc, na Tailândia, e fosse formado em direito na Universidade de São Paulo (USP). Lula, com sua origem pobre, pertence à maioria étnica brasileira. Obama, como negro, é da minoria nos Estados Unidos. O eleitorado negro americano, mesmo com o maciço comparecimento às urnas agora, subiu para apenas 13% do total. Lula venceu a eleição presidencial na quarta tentativa. Obama, na primeira. Lula, ao ser eleito, era o político mais conhecido do Brasil, e conhecia o Brasil de norte a sul. Obama, não. Desde 1976, quando apostaram em Jimmy Carter, governador da Geórgia, os democratas não lançavam nome tão desconhecido quanto Obama, senador há menos de quatro anos. Obama nunca andara pelos recantos dos Estados Unidos, em cuja parte continental pôs os pés pela primeira vez quando tinha 11 anos. Em campanha, adorou o Texas. Descobriu que o gumbo, um ensopado típico que conhecia em Chicago, não chega aos pés do de Nova Orleans. Gostou da cidade de Fargo, em Dakota do Norte, mas achou-a diferente do filme. Concluiu que as maiores diferenças do país não estão, como a muitos parece, entre norte e sul, leste e oeste, mas entre o meio rural, o suburbano e o urbano.

Obama lê dois jornais por dia, vive checando as notícias no seu BlackBerry e, nos últimos dias da campanha, estava lendo A História Secreta da CIA – Afeganistão e Bin Laden. Ele escreve bem. São de próprio punho suas duas precoces autobiografias. Na campanha renunciou ao recurso universal dos políticos atuais de contratar um ghost-writer. É um debatedor que não nocauteia o oponente. Ganha por pontos, sem sangue. A boa voz, a dicção perfeita e a riqueza vocabular, se não o colocam na galeria da oratória em língua inglesa de todos os tempos, fazem dele uma deliciosa exceção agora que os :( ou ;) e os "he he he" e "naum" começam a picotar a escrita e a fala até dos profissionais que vivem da comunicação oral, como é o caso dos políticos. Obama é mais noturno do que matinal. É observador, ouve com atenção. É capaz de sair de uma reunião sem que ninguém saiba o que realmente pensa. Na campanha, ficou evidente que usa mais o cérebro do que o coração. McCain às vezes estava irritado, outras eufórico. Obama parecia sempre mais controlado e seguro. No discurso da vitória, diante de 250.000 pessoas reunidas no Parque Grant, em Chicago, foi sereno e elogiou McCain – que pouco antes elegantemente reconhecera a derrota em Phoenix, no Arizona, diante de uma platéia. Disse McCain: "Obama era meu oponente, agora é meu presidente". O eleito reconheceu que a vitória foi do povo americano: "Posso não ter conquistado o seu voto, mas eu ouço a sua voz, eu preciso de sua ajuda. Eu serei seu presidente também", disse. Depois, despediu-se da massa acompanhado das duas filhas e da mulher – novamente exuberante, desta vez enfiada, com suas ancas bastas, num vestido preto e vermelho de elegância discutível mas 100% Michelle. Era modelo de Narciso Rodríguez, estilista que já vestiu uma integrante do clã dos Kennedy.

Doug Mills/NYT

O PRIMEIRO NOME
O deputado Rahm Emanuel, já nomeado chefe-de-gabinete de Obama: estilo agressivo como "uma mistura de hemorróida com dor de dente"

Sua vitória, se agora parece natural, foi um exercício de tenacidade. Há 21 meses, Obama começou sem dinheiro e sem apoio expressivo, e sua missão era derrotar as duas máquinas mais poderosas e eficientes da política americana – a dos Clinton, celebrizada no Partido Democrata por sua influência partidária e sua habilidade para levantar dinheiro, e a da direita mais conservadora do Partido Republicano, invejada pela sua descomunal capacidade de vencer. No início, ninguém acreditava em Obama. Nem o eleitorado negro. No início do ano passado, uma pesquisa do jornal The Washington Post e da rede de televisão ABC mostrou que Hillary Clinton, a ex-primeira-dama que disputou a indicação presidencial democrata, tinha nada menos que 40 pontos porcentuais de vantagem sobre Obama no eleitorado negro. Nem ele fazia idéia da dureza de uma disputa presidencial. Quando lhe mostraram, há dois anos, um roteiro de campanha, perguntou, ingenuamente, se poderia passar os fins de semana em casa, em Chicago. Obama aprendeu rápido e venceu as duas máquinas a bordo de superlativos. Sua campanha bateu o recorde em arrecadação – mais de 700 milhões de dólares –, mobilizou como raramente se viu a juventude americana e fez um uso eficientíssimo da internet.

Em quase dois anos de campanha, Obama mostrou-se um candidato disciplinado. O ex-presidente Richard Nixon dizia que nas primárias se faz o discurso à esquerda (no caso dos democratas) ou à direita (no caso dos republicanos) para satisfazer as bases. Na campanha, faz-se o discurso de centro (nos dois casos) para ganhar a eleição. Obama seguiu à risca. Nas primárias, arengava às massas com discursos de uma hora cheios de retórica triunfalista. Depois, falava trinta minutos, e seu discurso foi gradualmente perdendo em floreios e ganhando uns centímetros de consistência. Obama também teve o que todo político precisa: sorte. Tudo esteve a seu favor. O presidente George W. Bush chegou ao pináculo da impopularidade – e, civilizadamente, já anunciou que a transição para o novo governo será feita da forma mais serena possível. Cerca de 80% dos americanos acham que seu país está no caminho errado. E, na reta final da campanha, estourou a maior crise financeira das últimas décadas. Mesmo assim, com competência, disciplina e sorte, Obama não deu uma lavada. Venceu bem, não mais que isso. E não foi porque é negro. A fatia do eleitorado branco que votou em Obama é do mesmo tamanho da que votou em outros democratas antes.

Brendan Hoffman/Getty Images

RUMO À TRANSIÇÃO
O presidente Bush, com a mulher, Laura: ele chegou ao fundo da impopularidade, mas, em meio à crise, promete facilitar a transição


Das urnas, os democratas saíram com a Casa Branca e com maioria nas duas Casas do Congresso, o que nunca foi garantia de parlamento dócil em Washington. Terá pela frente um desafio hercúleo: um país com duas guerras, uma grave crise financeira e uma reputação internacional em frangalhos. É tal seu desafio que já se diz que vai precisar de algo parecido com a coragem de Abraham Lincoln, que assumiu na vertigem da Guerra Civil, e a astúcia de Franklin Roosevelt, que arrancou o país da Grande Depressão. Obama não perdeu tempo. Nos dias subseqüentes à vitória, já começou a formar sua equipe, até aqui constituída de amigos próximos ou ex-assessores de Bill Clinton – ou ambas as coisas, como é o caso do deputado Rahm Emanuel, 48 anos, já nomeado chefe de gabinete, cujo estilo agressivo foi definido certa vez por Paul Begala, estrategista democrata, como "uma mistura de hemorróida com dor de dente". É um indício de que Obama pretende pegar pesado.

Por maldade do destino, sua avó materna, que o criou enquanto sua mãe morava no exterior, morreu dois dias antes de sua vitória, aos 86 anos. Com a morte da avó, a família imediata de Obama desapareceu por inteiro. Seu pai foi vítima de um acidente de carro em Nairóbi, aos 46 anos, em 1982. Uma década mais tarde, o avô materno, Stanley Dunham, faleceu aos 73 anos. Sua mãe, Ann Dunham, morreu de câncer no ovário em 1995, três semanas antes de fazer 53 anos. Com a morte de todos os seus ancestrais diretos, que fizeram dele uma figura de três continentes, Barack Hussein Obama, com seu nome africano, árabe e tribal, é hoje o único representante de seu clã – é o filho do seu tempo a um passo de se transformar no homem mais poderoso do planeta.

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