Entrevista:O Estado inteligente

terça-feira, abril 29, 2008

Míriam Leitão - Efeitos do petróleo


PANORAMA ECONÔMICO
O Globo
29/4/2008

O consumo de plásticos no Brasil continua crescendo 10% ao ano, apesar de a matéria-prima, o petróleo, viver uma disparada de preços. Em 2002, a nafta era vendida a US$180 a tonelada; agora está em US$960. O preço da nafta segue cotação internacional mesmo quando ela é vendida pela Petrobras. O presidente da Braskem, José Carlos Grubisich, explica que parte do aumento é absorvida na cadeia produtiva.

Ontem, o presidente da Opep, Chakib Khelil, disse que, se o dólar continuar caindo, o petróleo continuará subindo. Pelas contas dele, cada vez que o dólar cai 1%, o petróleo sobe US$4. Em euro, o petróleo tem alta bem menos expressiva, como se pode ver no gráfico abaixo. Mas também sobe. Mesmo assim, o mundo pensa em dólar quando vê o preço do barril.

Na nafta, matéria-prima básica da petroquímica brasileira, o preço é reajustado todo mês pela média da cotação diária do mês anterior ponderada pela média da cotação do dólar. Isso tem batido, em parte, no produto final, mas o mercado interno continua aquecido.

- As vendas de PVC subiram 14% no ano passado por causa do crescimento da construção civil; as de polipropileno subiram 10%, puxadas pela indústria de automóveis. O aumento de obras públicas na área de saneamento vai consumir mais PVC também, de maior densidade - contou Grubisich.

Pelo visto, não é o preço que assusta esse mercado. A Braskem acabou de inaugurar, na semana passada, mais uma fábrica, em Paulínia (SP); vai dobrar a capacidade de produção de PVC da fábrica de Alagoas e toca dois projetos de produção de matéria-prima petroquímica com a Pequiven, a estatal petroquímica da Venezuela. O empresário conta que, apesar das vendas estarem aquecidas, nem todo o preço pode ser repassado, por causa da competição com o produto dos Estados Unidos.

O produtor americano usa gás natural (que lá tem preços mais baixos que os dos derivados de petróleo), leva vantagem com o dólar desvalorizado e tem sobra de produto por conta da economia interna desaquecida.

- Para eles, a solução é exportar, e a América Latina tem um custo de logística menor - afirmou o empresário.

O mercado de petroquímica enfrenta também as pressões para a redução do consumo por razões ambientais. O plástico é grande candidato a vilão. No mundo inteiro, a pressão é para que se elimine ou reduza o uso de, pelo menos, um dos produtos: as sacolas plásticas.

Grubisich acha que essas sacolas continuarão sendo usadas e que devem se desenvolver formas de reutilização do produto. Por via das dúvidas, a empresa está investindo no projeto do polietileno verde, que vai produzir, até 2010, 200 mil toneladas de plástico vegetal, feito a partir do etanol.

O produto já sairá da fábrica com dois tipos de certificação: de que usa matéria-prima renovável e que o balanço de emissão de carbono na cadeia de produção, desde a plantação da cana, é altamente positivo.

- Ele seqüestra duas toneladas e meia de carbono em cada tonelada de carbono que emite. No final, quando não puder mais ser reutilizado, pode virar fonte de energia.

O plástico vegetal da Braskem, antes de ser produzido, já tem mercado potencial para 2,5 vezes o que pretende estar fabricando em 2010. Porém o executivo admite que, quando explica seu projeto, enfrenta perguntas incômodas lá fora.

- Eles querem saber se as plantações de cana do etanol estão empurrando a produção de grãos e carne para a Amazônia; perguntam muito sobre o ritmo do desmatamento; querem saber sobre trabalho escravo no país.

Na Amazônia, quem está tentando exportar sua produção vive ameaçado por estes fantasmas produzidos pelo Brasil que não quer se modernizar. A lavoura arcaica cobra seu preço e pode virar barreira até para produtos industriais.

Houve, na petroquímica brasileira, uma grande concentração. Existem menos empresas e, em quase todas, a Petrobras tem participação relevante: seja na Braskem, ou na Petroquímica do Sudeste (soma de Suzano, Petroquímica União, Unipar e Rio Polímeros). No entanto, ao contrário da gasolina e do diesel que não sobem, a nafta sobe na onda da alta do petróleo.

A cobrança ambiental tende a ser cada vez maior sobre toda a cadeia produtiva que usar os combustíveis fósseis como fonte de energia ou como matéria-prima. A petroquímica terá que lidar com todas essas pressões.

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