Entrevista:O Estado inteligente

quarta-feira, janeiro 30, 2008

Merval Pereira - Ganância e complacência



O Globo
30/1/2008

Parece título de filme, e o enredo certamente dá um roteiro hollywoodiano. A notícia do desfalque de 5 bilhões dado pelo operador de mercados futuros do Société Générale Jérôme Kerviel estourou junto com o primeiro dia de debates do Fórum Econômico Mundial em Davos, cuja programação já havia sido literalmente atropelada pela crise financeira dos Estados Unidos, gerada pelos prejuízos generalizados de bancos americanos e europeus com o estouro da bolha imobiliária. Os empréstimos podres que levaram bancos do porte do Citi a amargarem grandes prejuízos provocaram uma crise de crédito de que até hoje não se tem a dimensão exata, e ganharam importância os painéis que debatiam o papel das agências de risco na economia globalizada e a atuação dos Bancos Centrais, tanto na supervisão do mercado financeiro quanto no controle das crises.

A revelação posterior de Kerviel de que atuava fora do controle do banco desde 2005, e que vários de seus companheiros de mercado financeiro continuam fazendo a mesma coisa, criando investidores fantasmas, forjando relatórios e arriscando acima de um limite razoável, continua provocando discussões sobre as falhas do sistema de controle. O toque de dramatização veio ontem, com Kerviel falando em "pressão e tentação" por parte da diretoria de seu banco.

Na França, a discussão sobre o descontrole das instituições financeiras chegou até o Palácio Eliseu, com o presidente Nicolas Sarkozy sugerindo que os executivos principais do banco Société Générale deveriam sofrer punições. Seu comentário tornou o presidente do Sogeral, Daniel Bouton, um demissionário em potencial.

Assumindo uma posição de defesa da empresa francesa, um papel de "patriotismo econômico" que não é estranho ao Estado francês tradicionalmente, Sarkozy deixa transparecer que, se for preciso, o governo ajudará o banco a resistir a eventuais tentativas de compra por bancos estrangeiros.

Ontem mesmo o primeiro-ministro François Fillon, alegando que o governo tem que se preocupar com os 130 mil empregados e clientes do Société Générale, anunciou que todo apoio será dado para que o banco francês não seja vítima de um ataque hostil de bancos estrangeiros. Isso porque havia o boato de que o HSBC ou o Barclays estariam dispostos a se aproveitar da fragilidade do Sogeral para tentar comprá-lo.

Em Davos, Walter Kielholz, presidente do conselho diretor do Credit Suisse, admitiu que nos últimos quatro a cinco anos as instituições financeiras estiveram sob forte pressão para obter resultados atraentes, diante do apetite por risco do mercado, e reduziram suas margens de segurança. Já Guillermo Ortiz, presidente do Banco Central do México, ressaltou que o ponto comum entre todas as crises financeiras por que já passou é a falta de transparência.

O presidente da Moody"s, uma das principais agências de risco, Raymond W. McDaniel Jr., aceitou a acusação de que as agências de risco são parcialmente responsáveis pela crise de crédito. Na sua avaliação, houve uma deterioração nas informações geradas pelas instituições financeiras, tanto em veracidade quanto em extensão, e a má qualidade dessa informação não foi devidamente percebida pelas agências de risco, o que fez com que o modelo de análise com que trabalham ficasse superado.

As agências terão, a partir dessa crise, que mudar seus conceitos e modelos para medir apropriadamente o risco das operações financeiras. Uma questão que ficou em aberto para futuras deliberações é o potencial conflito de interesse que existe no fato de que as agências de risco são pagas pelas companhias que elas avaliam.

Até que haja mais clareza sobre a real dimensão dos prejuízos, o processo de desvalorização continuará sendo doloroso. As muitas e desencontradas instâncias em que é feita a regulação dos investimentos financeiros, segundo o principal executivo do BIS, Malcolm Knight, também contribuíram para a falha nos controles.

Segundo ele, a existência de mais de 50 agências reguladoras nos Estados Unidos provocou uma "balcanização" da legislação, tirando sua eficácia. O consenso, em diversos painéis, foi de que variados fatores podem ser responsabilizados pela crise, mas a falta de transparência, e a complacência com que o mercado financeiro tratou os sinais de que alguma coisa estava errada, foram decisivos para que a situação chegasse aonde chegou.

O presidente do Banco Central brasileiro, Henrique Meirelles, deu o exemplo dos bancos brasileiros, que se saíram relativamente intocados da crise principalmente devido a uma legislação rigorosa aprovada depois de uma série de crises com bancos nos anos 90.

Embora seja impossível uma entidade internacional única para fazer o controle, é necessário integrar cada vez mais os sistemas de regulação dos Estados Unidos e da União Européia. Os acordos bancários Basel I e Basel II foram apontados como um avanço nessa integração, embora o presidente do BIS tenha ressaltado que se os bancos americanos estivessem atuando dentro dos parâmetros de Basel II, poderiam ter evitado a crise em tão larga escala.

Com os escândalos e as brechas regulatórias aproveitadas pela ganância do mercado financeiro, o fantasma de Michael Milken, um dos pioneiros nas fraudes financeiras, voltou ao cenário, juntamente com seu lema preferido: "Greed is good" ("Ganância é bom").

Considerado por muitos um inovador do mercado financeiro, por popularizar os investimentos de alto risco, foi preso em 1998 e, condenado a dez anos de prisão, saiu depois de dois anos. Com uma fortuna estimada em US$2 bilhões, é o 458º homem mais rico do mundo, segundo a "Forbes".

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