sexta-feira, março 10, 2006

Luiz Garcia Primeiro, não; depois, sim

O GLOBO

Ainda se discute — como aconteceu ontem em debate no GLOBO — o comportamento da imprensa ocidental no caso das charges ridicularizando Maomé publicadas na imprensa dinamarquesa.

Não sei o que terá sido dito ontem. Para falar a verdade, tenho vaga lembrança sobre o que eu mesmo escrevi na época em que o tema explodiu, em ruas e manchetes.

Mas sei que associei o conceito da liberdade de imprensa a um indispensável senso de responsabilidade no exercício dessa mesma liberdade. Isso me pareceu — e ainda parece — óbvio e universal. Em qualquer campo das idéias e das ações a noção das conseqüências é importante pára-choques que nos obriga a reconhecer que a liberdade do vizinho é tão importante quanto a nossa.

Existem, claro, os problemas inevitáveis na convivência dos contrários. E, principalmente para os mais fortes, é duro resistir à tentação da conversão pela força (política, militar, econômica) daqueles que não pensam como nós.

Essa tentação, claro que em outos termos, existe também para a mídia de cada país. Se aceitarmos que não há liberdade política sem respeito pelos direitos óbvios do vizinho, não estaremos apenas agindo em defesa da paz: o próprio conceito de liberdade de imprensa sai ganhando.

Ou seja: o direito de informar ganha legitimidade quando associado ao direito de defesa das convicções alheias. Não é nada simples: como esse respeito pelas opções alheias pode ou deve se expressar em face de um ambiente cultural e político que não reconhece a liberdade de imprensa?

Fica combinado que é tudo muito complicado. Mesmo assim, talvez possamos extrair algumas conclusões razoavelmente sadias do episódio das charges desrespeitando Maomé. Proponho:

1. Publicar as charges é, em tese, coerente com o exercício da liberdade de expressão.

2. Na prática, fazê-lo sabendo que elas serviriam de estopim para reações violentas significou correr um risco com vidas alheias; não me parece até hoje decisão coerente com o senso de responsabilidade que existe colado na liberdade de imprensa. Continuo pensando assim. Os chargistas não desejavam a onda de violência que se seguiu, mas isso não os livra da responsabilidade por alimentá-la. É bem menor do que a dos líderes muçulmanos radicais que as usaram como estopins, mas existe.

3. Não me venham com o argumento de que a liberdade de expressão só sobrevive se for absoluta. Nunca foi, nunca será. Nenhuma liberdade é, a não ser a do náufrago na ilha deserta — e só até Sexta-Feira chegar.

4. Uma vez iniciada a onda de violência dos fanáticos muçulmanos, divulgar as charges passou a ser um dever dos meios de comunicação. O mal estava feito, e restabelecida a sua obrigação de explicar como tudo começara.

5. Portanto, a crise tem um segundo capítulo importante. Se no primeiro momento produzir as charges — a propósito, quase todas medíocres— foi um ato de irresponsabilidade, no segundo, não mostrá-las significou negar à opinião pública, por covardia, o direito de formar opinião sobre o que justificara (ou não) a onda de violência.

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