sábado, fevereiro 11, 2006

O estadista necessário LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA

FOLHA

O Brasil precisa de uma liderança capaz de enfrentar a armadilha da alta taxa de juros e do câmbio baixo -a doença econômica que substituiu a alta inflação em manter a economia brasileira semi-estagnada. José Serra pode, melhor do que qualquer outro, proporcionar essa liderança. É o político brasileiro mais preparado e com mais determinação para, na Presidência da República, enfrentar os problemas nacionais.
Enquanto a maioria dos países que já realizaram sua revolução capitalista se desenvolvem aceleradamente, o Brasil continua semi-estagnado. Fernando Henrique resolveu o primeiro grande obstáculo para retomar o desenvolvimento brasileiro (a alta inflação inercial), mas, depois, aceitou conselhos do Norte e, apesar de avanços institucionais e na área social, o país continuou paralisado pelos juros e pelo câmbio.
Lula foi a maior decepção política de que me lembro haver ocorrido no Brasil. Traiu seus compromissos e foi incompetente: beneficiou-se do ajuste externo que as duas crises cambiais e a enorme prosperidade internacional proporcionaram, mas nada fez, a não ser aumentar a enorme transferência de renda dos pobres e da classe média para rentistas que vivem de juros.
Não subestimo as dificuldades que Serra enfrentará caso seja escolhido pelo PSDB e, em seguida, eleito. São muitas, e começam pela alienação das elites intelectuais, políticas, burocráticas e empresariais brasileiras, que, no decorrer da grande crise em que vivemos desde 1980, perderam a idéia de nação. Ao terminar a Guerra Fria, não compreenderam que a globalização não era o que o Norte propalava -tornar os Estados-nação irrelevantes-, mas, ao contrário, era o momento em que o sistema capitalista mundial afinal abrangia toda a Terra e, assim, se materializava sua dupla lógica: a competição generalizada entre empresas e entre Estados-nação.
Os grandes países asiáticos, como China e Índia, compreenderam este fato -perceberam que seu desenvolvimento dependia de uma estratégia nacional de desenvolvimento que os tornasse competitivos- e se lançaram com êxito no processo de "alcançamento" (catch up). Enquanto isso, nós ficamos para trás, ao insistirmos em aceitar os conselhos dos nossos concorrentes. A instabilidade macroeconômica e a semi-estagnação da economia brasileira são os sintomas da alienação nacional.
É nesses momentos que as nações precisam de líderes com qualidades de estadista. Preferia que fosse outra a realidade: que nossas instituições fossem tão sólidas, que nosso Estado funcionasse tão bem, que o governo não fizesse grande diferença. Infelizmente, não é assim, e precisamos de uma liderança que saiba combinar competência com compaixão, coragem com prudência.
Ninguém pode garantir que Serra seja esse líder. Estadistas só se provam quando efetivamente assumem o poder maior de uma nação e ali revelam visão e coragem. Conheço-o o suficiente, porém, inclusive seus defeitos, para acreditar que ele é esse líder. Haverá quem queira desclassificar minha afirmação pelo fato de que sou seu amigo. Ainda que isso seja verdade, tenho boas razões para acreditar que estou sendo objetivo.
Conheço-o desde os tempos em que foi presidente da UNE. Tornei-me seu amigo quando voltou do exílio. Participamos juntos do maravilhoso governo Montoro, do qual ele foi o principal agente. Participamos juntos da fundação do PSDB e do governo Cardoso. Nesse governo, criticamos juntos a política macroeconômica, enquanto ele realizava um notável trabalho no Ministério da Saúde. Apoiei-o para a Prefeitura de São Paulo, e os resultados de sua administração, que combina firmeza e austeridade com visão ampla dos problemas, já se manifestam. Em todos os anos, pude sempre comprovar sua integridade e seu espírito republicano.
Serra é, sem dúvida, o candidato do PSDB com maiores condições de chegar à Presidência. Mas o que eu quis salientar neste artigo são suas qualidades pessoais, que o tornam o provável estadista necessário do Brasil. Já ouvi muitos elogios e já ouvi críticas a ele, inclusive a crítica equivocada de que não é bom de eleições. Mas o elogio maior que ouvi foi de uma amiga: "Serra é um político que prefere ser respeitado a ser amado".
Como qualquer político democrático, Serra certamente quer ser amado, mas tem a força interna suficiente para não fazer concessões desnecessárias. Será candidato se as pesquisas eleitorais continuarem a dizer que os eleitores o convocam. Será um grande presidente se, afinal, conseguir unir os brasileiros em uma grande e democrática estratégia nacional de desenvolvimento

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