sexta-feira, fevereiro 17, 2006

Como gerir uma economia de mercado LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS

FOLHA

Procuro sempre construir algumas imagens, buscadas no mundo real de cada um de nós, para facilitar a compreensão dos fenômenos econômicos. Recentemente usei a imagem de um coração novo -o balanço de pagamentos- para explicar a fase nova que vive a economia brasileira. Instado a discutir recentemente a política econômica de um eventual governo tucano, me veio à mente uma outra dessas comparações. Procurei mostrar a meus interlocutores que a economia de um país pode ser associada a um desses computadores que hoje fazem parte de nossas vidas, composto basicamente por três itens principais: o chamado hardware, o sistema operacional e os aplicativos.
O hardware é a parte física dos computadores, formada pelos componentes eletrônicos que permitem a manipulação dos dados e informações; o sistema operacional é o "pensamento" que comanda a máquina e a faz útil para o homem; e os aplicativos são os programas que permitem aos usuários realizarem suas tarefas de maneira mais eficiente e fácil.
No PC imaginário que associo à economia de um país, o hardware é o conjunto de estruturas físicas e regras legais que formam o arcabouço institucional. Fazem parte também desse conjunto os agentes econômicos -empresas, consumidores e governo. No mundo de hoje, tecnológico e competitivo, o sistema educacional também compõe o hardware.
Já o sistema operacional que faz a estrutura básica funcionar de maneira harmônica e inteligente é o que chamamos de política macroeconômica. Ele é integrado pelas políticas fiscal, monetária, de comércio exterior e por uma serie de políticas públicas que visam interferir no funcionamento da economia -incentivos fiscais e controle da concorrência, por exemplo.
Os aplicativos são principalmente subsistemas da economia, tais como a gestão da previdência pública e de programas sociais para combater problemas de pobreza e saúde publica.
Quando se pensa o programa de um novo governo é preciso construí-lo a partir desses três elementos. Como o funcionamento das economias de mercado evolui ao longo do tempo, é preciso um contínuo processo de modernização e adaptação do hardware a essa nova realidade. Um descuido em relação a essa preocupação pode custar caro a uma sociedade, na medida em que torna a economia menos competitiva, gerando, no médio prazo, perda de renda e de bem-estar social. Um exemplo claro desse risco no Brasil atual é o nosso sistema educacional, que não responde mais às demandas do mundo contemporâneo. Outros pontos críticos são a infra-estrutura física deficiente -portos, estradas, sistemas de geração de energia elétrica-, a fragilidade institucional, a morosidade da Justiça etc.
Mas gostaria de me concentrar hoje na política macroeconômica, o sistema operacional de nossa economia. Na minha opinião, o primeiro grande desafio de um novo governo é mudar esse sistema, pois o atualmente utilizado pelo governo Lula está errado e faz com que o computador funcione com pouca eficiência e gere problemas de longo prazo. O governo, nos seus três anos no poder, aumentou de maneira contínua seus gastos correntes, praticamente zerou os investimentos em infra-estrutura e buscou manter um superávit primário elevado por meio de um brutal aumento de impostos, asfixiando a atividade privada e impedindo o país de aproveitar plenamente a excepcional conjuntura mundial que estamos vivendo.
Para compensar essa política fiscal expansionista, o governo foi obrigado a manter a taxa de juros elevadíssima que, com seu filho bastardo que é a valorização do câmbio, serviu para tratar da questão da inflação. Com isso, o crescimento da economia foi pífio, principalmente quando comparado com o de outras economias, resultando no baixo crescimento da renda do trabalhador nos últimos anos. A incapacidade do atual governo de ter uma visão integrada da política econômica pode ser associada a um vírus que está impedindo a economia brasileira de funcionar a plena capacidade.

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