Entrevista:O Estado inteligente

domingo, janeiro 29, 2006

LUÍS NASSIF A indústria estéril da arbitragem

FSP
O sábio recluso me escreve de novo. Andou analisando a indústria da arbitragem de juros, criada pelo Plano Real e mantida pelo governo Lula. Consiste em trazer dólares de fora, a um custo baixo, e aplicar aqui em títulos públicos, à taxa Selic, sem risco, tudo garantido pelo Banco Central.
Ele compara esse ciclo de rendimentos parasitários às lavras de ouro e de diamantes, nos primórdios da colonização, e ao tráfico de escravos, negócio central do capitalismo brasileiro por 200 anos, estabelecendo em torno dele um anel de negócios paralelos de navegação, bancos e seguros.
Tal qual o tráfico negreiro, o negócio da arbitragem tem poderosos apoios no governo e nos círculos do poder. Seus donos e beneficiários se dividem em três grupos:
1. Bancos grandes, médios e pequenos e suas ramificações auxiliares, empresas de leasing, holdings financeiras e administradoras de cartões de crédito que conseguem linhas de crédito no exterior. Bancos, mesmo pequenos, estão hoje conseguindo captar no exterior com extrema facilidade, dada a exorbitante liquidez internacional.
2. Empresas da economia produtiva de grande porte que têm cadastro para captar no exterior. Nesse grupo contam-se aproximadamente 120 empresas brasileiras.
3. Brasileiros com depósitos e aplicações em moeda estrangeira, registrados ou não no BC, que podem usar esses recursos como lastro para captar no exterior. São US$ 94 bilhões registrados no BC mais uma estimativa média de depósitos não declarados de US$ 120 bilhões.
Esses três grupos conseguem levantar grandes volumes de dólares ou euros a taxas de até 4% ao ano, ou mais altas quando o devedor está legalmente no Brasil, mas ainda assim por menos da metade das taxas internas.
Como a dívida pública em reais está hoje com um volume equivalente a US$ 400 bilhões e não cessa de crescer (só em 2005 cresceu 21%), a disponibilidade de papéis para arbitragem é quase ilimitada, diz ele. De 45% a 50% do total da dívida pública interna está lastreando operações de arbitragem.
Os donos da arbitragem hoje comandam toda a lógica da política monetária. É a esses interesses que está subordinada a política monetária do Copom, o manejo da política cambial, a obsessão com as metas de inflação como centro de toda a política econômica, o incompreensível desprezo do BC pelos números da economia produtiva , o crescimento brasileiro, muito inferior a todos os grandes emergentes, inferior à média da América Latina, inferior à média mundial e inferior à média do crescimento da África em 2005 (4,7%). Só há um público para o Copom: os donos da liquidez, beneficiários dos negócios da arbitragem.
Tome-se o exemplo:
1. O investidor pegou um empréstimo de US$ 10 milhões no exterior e entrou no Brasil no início de 2003, com o dólar a R$ 3,50. Converteu e aplicou R$ 35 milhões em papéis Selic por três anos, a uma média de rentabilidade de 20% ano (apenas para exemplificar).
2. No primeiro ano os papéis valiam R$ 42 milhões; no segundo ano, R$ 50,4 milhões; no terceiro ano, R$ 60 milhões.
3. No resgate, ele pode recomprar os dólares a R$ 2,25, ficando com US$ 26,66 milhões. Pagou os US$ 10 milhões do empréstimo, mais US$ 2,5 milhões de juros. Seu lucro foi de US$ 14,1 milhões, quase uma vez e meia seu capital inicial, em apenas três anos, além do rendimento de sua aplicação original que lastreou o empréstimo.
Trata-se de uma operação fantástica, única no planeta. Existem no Brasil meia dúzia de grupos com capacidade de tomar individualmente mais de US$ 1 bilhão cada um, outra dezena ou pouco mais com captações individuais de US$ 500 milhões a US$ 1 bilhão e na faixa dos US$ 100 milhões a US$ 200 milhões existem empresas até desconhecidas do grande público, calcula ele.
Os lucros da arbitragem são estéreis, não derivam da criação de riqueza e produzem, ao contrário, grande concentração de renda e riqueza.
O nó górdio da economia consistirá em romper com esse círculo vicioso induzindo o grande capital a investir na atividade produtiva.

Radamés
Viva os 250 anos de Mozart! Mas os 100 anos de Radamés Gnatalli passarem em branco é o fim!

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