Entrevista:O Estado inteligente

sexta-feira, outubro 21, 2005

Luís Nassif - A grande lavanderia

Luís Nassif - A grande lavanderia


Folha de S. Paulo
21/10/2005

A BM&F (Bolsa de Mercadorias e Futuros) possui um sistema eletrônico, o Sisbex, em que se negociam títulos públicos. Qualquer oferta de compra e venda é registrada, e todo o mercado pode se habilitar a ela. No entanto, dos R$ 10 bilhões a R$ 15 bilhões de negociações diárias com títulos públicos, apenas metade é fechada nesse sistema -sem contar as operações "intraday" (que são abertas e fechadas no decorrer do mesmo dia). A outra metade é operação de balcão, na qual um cliente contata outro, faz a proposta e fecha negócio sem que haja nenhuma interferência externa.
É por aí que se escoam os recursos da maior lavanderia do país.
Em algumas circunstâncias se admite o balcão, especialmente nas chamadas operações estruturadas. Uma empresa faz determinada operação em iene, mas tem compromissos a pagar em dólares e reais. O sistema eletrônico permite o "swap" (troca) apenas entre dois ativos. Entrando mais um, há que recorrer ao balcão.
O que ocorre em abundância, hoje em dia, é o recurso que entra de uma "offshore" de Bahamas, por exemplo, ou a fundação que compra um papel por preço acima de mercado ou vende por preço abaixo.
Na prática, o mercado de balcão se transformou no centro da lavanderia mundial. Dados do BIS (o banco central dos bancos centrais) informam que, internacionalmente, o mercado de derivativos de balcão envolve giro anual de US$ 270 trilhões -o equivalente aos mercados eletrônicos.
Se feitas via Bolsa, as operações vão deixar impressão digital, CPF e tudo. Sobretudo, vão deixar um preço transparente, competitivo e de mercado -que impedem as jogadas fiscais ou os golpes contra fundações e contra as próprias instituições. Com as altas taxas de juros praticadas, é possível a um fundo repassar indevidamente parte do ganho a outra instituição e ainda assim ostentar rentabilidade positiva em sua carteira.
Além da BM&F, existe o sistema Selic (em que os bancos negociam suas reservas bancárias) e a Cetip (de venda eletrônica de papéis privados e alguns públicos).
Por questões internas de poder, a BM&F não vai conseguir pressionar seus associados para operar exclusivamente via eletrônica. Esse papel cabe ao Banco Central.
Quando foi instituído o Sistema de Pagamentos Brasileiro, o BC o empurrou para fazer "clearing" (fechamento de operações, com as devidas garantias) de câmbio. Quando o Banco Santos estourou, quase todos os seus ativos provocaram pesadas perdas nos aplicadores. Mas as operações de câmbio estavam garantidas. Hoje em dia, pelo "clearing" passam 95% das operações interbancárias de câmbio. Mas, no caso de títulos públicos, quase todos os ativos passam pelo mercado de balcão.

SPC
A SPC (Secretaria de Previdência Complementar) informa já estar trabalhando com o Grupo de Trabalho Mercado de Capitais e Poupança de Longo Prazo (SPC, Fazenda, CVM, BC e Planejamento) para obrigar as fundações a transitarem por meio eletrônico todas suas transações de renda fixa.

Arquivo do blog