ARQUIVO DE ARTIGOS ETC

sábado, agosto 27, 2016

Olimpíadas: oportunidades em aberto Josef Barat



O ESTADO DE SÃO PAULO - Economia e Negócios

Quarta Feira , 24 de Agosto de 2016.



Em geral, a importância de sediar os Jogos Olímpicos é medida pelo legado que deixam nas cidades que os recebem. São profundas mudanças na configuração urbana, melhorias nas infraestruturas em geral – particularmente nas de mobilidade – parques olímpicos que se integram ao lazer dos cidadãos, bem como construções e equipamentos esportivos que, em tese, contribuirão para ampliar a cultura do esporte. Outra métrica é a do número de visitantes, principalmente estrangeiros, pelo que aportam de receita para o comércio e serviços, além da ampla divulgação mundial das atratividades da cidade sede.

No entanto, os Jogos Olímpicos também têm impactos na economia como um todo, na medida em que estimulam expectativas e confiança nos agentes produtivos. Há toda uma cadeia de produção e negócios que se forma em torno dos Jogos, o que acaba por dinamizar o ambiente econômico. Em países onde prevalece uma visão voltada para estratégias de longo prazo, sediar uma Olimpíada pode ser o detonador de uma multiplicidade de iniciativas nas atividades criativas voltadas para a inovação e o aproveitamento de talentos. Neste sentido, há toda uma soma de esforços coordenados de entidades públicas e privadas, para fortalecer e ampliar o alcance desta cadeia produtiva.

Em um mundo globalizado e competitivo, abre-se assim uma oportunidade única de inserção mais ampla e forte no cenário internacional. O que pode beneficiar, em muito, o comércio exterior, a atração de investimentos, a divulgação de marcas e produtos do país, enfim toda uma gama de possibilidade para atingir um novo patamar de presença mundial. Se as oportunidades são bem aproveitadas, abrem-se perspectivas muito amplas, que acabam por transcender o esporte e a magnitude do evento em si.

Um legado importante, também, é o de todo um esforço coordenado de governos, grupos empresariais, universidades e centros de pesquisa, no sentido de tirar partido dos Jogos Olímpicos para fomentar o esporte. O planejamento de longo prazo e os investimentos voltados para o fator humano – aprimorando atletas e treinadores – acabam difundindo pela sociedade, o interesse e oportunidades para atrair mais atletas. Os exemplos recentes de Pequim e Londres, mostram como, desde os anos 90, a visão de longo prazo influiu decisivamente no posicionamento atual das equipes desses países no ranking de medalhas.

Países que investem na pluralidade das práticas esportivas e no treinamento consistente da escola à universidade atingem níveis de excelência em uma gama mais ampla de modalidades do esporte. Maior o número de medalhas, maior o potencial de disseminação do esporte. O caso dos Estados Unidos é emblemático e demonstra o sucesso da articulação de investimentos privados e interesse público no estimulo à pratica esportiva, modelo que permaneceu e se aprimorou ao longo do tempo. Grã-Bretanha e China são casos bem planejados de sucesso, a primeira estimulando parcerias público-privadas e a segunda driblando a ortodoxia estatal.

O Brasil, com o seu renitente distanciamento em relação ao mundo, não entendeu bem para que serve o privilégio de sediar os Jogos Olímpicos. A atenção – sempre de curto prazo e oportunista – concentrou-se nas obras e nos aspectos mais superficiais e visíveis do legado urbano. Pouco se aproveitou do gigantesco potencial de estimulo econômico e subestimou-se o potencial de maior integração ao circuito mundial da inovação e criatividade.

Do ponto de vista estrito da atividade esportiva, frustrou-se a expectativa de programas bem estruturados e consistentes de descoberta de talentos e treinamento desde a escola até a universidade. Com a exceção de apoios pontuais e meritórios das Forças Armadas e de algumas empesas, nossos atletas tiveram que enfrentar, via de regra, enormes dificuldades para alcançarem sucesso nas competições. Avançamos nas medalhas e diversificamos as participações, é verdade, mas ainda há um longo caminho a percorrer para superarmos a monocultura do futebol e ingressarmos no seleto grupo das potências olímpicas.


Josef Barat - Economista, Consultor de entidades públicas e privadas, é Coordenador do Núcleo de Estudos Urbanos da Associação Comercial de São Paulo. 

 

 

 


quinta-feira, agosto 25, 2016

O reajuste previsto no... déficit - Carlos Alberto Sardenberg

O reajuste previsto no... déficit - Jornal O Globo

O reajuste previsto no... déficit

Indicadores da economia brasileira, nesta véspera do impeachment, podem ser divididos em três grupos:

— os que continuaram piorando, mas estão piorando menos;

— os de estabilidade (pararam de piorar no fundo do poço);

— os que mostram um começo de recuperação.

E há indicadores misturados. Considerem, por exemplo, os salários pagos no setor privado formal. Em maio, segundo a pesquisa Salariômetro, da Fipe-USP, a folha de salários nacional chegou a R$ 99,3 bilhões. É menor do que o número verificado um ano atrás, porém um pouco maior que a folha de abril.

Outro dado importante da mesma pesquisa. Em janeiro deste ano, nada menos que 68% dos ajustes salariais negociados ficaram abaixo da inflação — portanto, com perda real para os trabalhadores. Para junho, 37% dos ajustes perderam da inflação. É melhor, indica que a maior parte dos assalariados conseguiu repor sua renda nesse mês, mas continua ruim para boa parte dos trabalhadores com carteira assinada.

Mas, por qualquer lado que se verifique, há uma conclusão comum: a sociedade brasileira já está pagando um preço muito alto pela crise econômica causada pelos enormes erros dos governos Lula (no segundo mandato) e Dilma. A carga maior ficou para os trabalhadores do setor privado: o desemprego chega a 12 milhões de pessoas, e os salários reais caíram.

Não raro, houve queda dos rendimentos nominais. Segundo a mesma pesquisa da Fipe, entre janeiro e junho deste ano, 208 acordos coletivos tiveram redução de salários. Claramente, esses trabalhadores trocaram salário por emprego, entendendo a situação de dificuldade real das empresas, com queda de vendas e aumento de custos.

Pois este é um ponto a ressaltar. As empresas não constituem um grupo de vampiros querendo sugar o sangue dos trabalhadores e dos consumidores. As companhias evitam demitir e fazem esforços enormes para não aumentar preços neste momento de recessão.

Em vários setores, trabalhadores e patrões conseguiram colocar-se de acordo para ao menos amenizar as perdas.

Mas tem uma grande empresa chamada governo, cujos donos, os contribuintes, não comandam a sua gestão. Quem toma as decisões sobre essa grande companhia são deputados e senadores e dirigentes do Executivo.

Essa empresa está quebrada — e por ser a parte dominante da economia brasileira, sua crise se espalha por toda a sociedade. Para simplificar, a causa maior da crise brasileira está na destruição das finanças públicas: despesas crescendo mais do que a receita; estatais endividadas; bancos públicos com problemas de inadimplência; obras inacabadas e muito mais caras que o previsto; má gestão e corrupção; empresas público/privadas, como a Sete Brasil, espalhando prejuízos para o governo e setor privado.

Resumindo: essa companhia, no seu braço federal, vai fazer um déficit de R$ 170 bilhões neste ano e outro de R$ 139 bilhões em 2017.

Faz sentido essa companhia-governo conceder reajustes salariais para as categorias de trabalhadores mais bem remuneradas e com garantia de emprego?

Sim, sabemos o argumento dos dirigentes sindicais e dos políticos e gestores: esses reajustes do funcionalismo apenas repõem a inflação.

Apenas?

Uma companhia quebrada — e cuja situação prejudica toda a sociedade — tem que fazer um baita ajuste, com redução de seus gastos.

Dizem ainda: os novos gastos com a folha já estavam previstos no Orçamento. Mas o Orçamento é deficitário. Logo, estão nos dizendo: tudo bem reajustar os salários do funcionalismo, pois isso já está previsto no... déficit!

Tem mais. Essa companhia-governo pretende cobrar uma conta de parte de sua clientela, os aposentados e pensionistas do INSS. Aprovada uma reforma, esses clientes, todos do setor privado, que já pagam pela crise com salários menores e desemprego — terão benefícios menores e trabalharão mais anos para obter a aposentadoria.

Sim, a reforma da Previdência é uma necessidade. Sem ela, não há ajuste, o que seria ruim para toda a sociedade.

Por isso mesmo, é mais do que necessário, é justo, eticamente indispensável e politicamente obrigatório que se faça também reforma na administração pública, na gestão dessa companhia-governo. Inclusive para ao menos reduzir as distorções que separam elite e base do funcionalismo.

Carlos Alberto Sardenberg é jornalista



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sexta-feira, agosto 19, 2016

Montoro, votos e valores

Montoro, votos e valores

Montoro, votos e valores

Este é o ano do centenário de André Franco Montoro, deputado estadual, federal, senador e governador de São Paulo, um político vindo da Democracia Cristã, então uma corrente ideológica influente. O que se segue é um relato baseado em observações de quem participou da campanha e do governo Montoro.

         Estamos em 1982. Começam as campanhas para governador em todos os Estados, as primeiras eleições livres  e diretas desde a instalação do regime militar, em 1964. O Brasil está em recessão, logo vai dar um calote na dívida externa e esse fracasso econômico é a pá de cal que enterra o regime. O Movimento Democrático Brasileiro (MDB) vai ganhar. Em São Paulo, o então senador Franco Montoro abre sua campanha como favorito disparado.

         Ainda assim, havia um certo pé atrás em relação a ele, isso no ambiente político profissional. Dizia-se: é muito ideológico, pouco realista; muito visionário, pouco capaz na política do dia-a-dia; sonhador, não pragmático.

         Havia alguma verdade nesses comentários. Montoro colocava temas então inesperados. Por exemplo: meio ambiente, ou a tese segundo a qual o desenvolvimento industrial deveria ser submetido a regras de proteção ambiental. Isso dito em 1982, quando o país precisava justamente de uma retomada da indústria, parecia uma loucura.

         E não era só uma tese. Montoro havia assumido a bronca da população da Baixada Santista com a poluição espalhada pela indústria petroquímica de Cubatão - e prometia mudanças.

         Vai matar a indústria, diziam.

         Também se empolgava com as ideias de economia comunitária. Nos comícios pelo interior, pregava a criação das hortas familiares e comunitárias.

         Ora, diziam, São Paulo precisa é de um baita agronegócio.

         Descentralização era outro tema caro. A ideia: transferir poder e recursos para os municípios, o que seria mais eficiente e mais fácil de fiscalizar.

         Também era criticado por isso: os prefeitos vão gastar tudo em fontes luminosas, diziam.

         Aliás, aqui estava outro ponto crucial, a volta dos políticos ao poder. Depois de 18 anos de regime militar e tecnocrático, os políticos sonhavam com o momento em que poderiam de novo comandar a distribuição de verbas e cargos.

         Muitos dos que estavam na campanha, entre os quais me incluo, demoraram para entender Montoro. Olhando assim de imediato, de fato parecia ridículo falar em hortas comunitárias no momento em que o país passava por uma forte recessão, sendo São Paulo duramente atingido.

         Com o tempo, a gente foi percebendo que Montoro estava longe da ingenuidade. Ao mesmo tempo em que falava das hortas, cercava-se de economistas de primeira linha, aos quais confiou e delegou a gestão da macroeconomia. Falava em dar poder aos políticos, mas acrescentava as restrições orçamentárias e éticas.

         Certo dia, prefeitos do Vale do Paraíba, uma próspera região paulista, foram ao governador exigir a construção de um sistema de viadutos. Montoro dizia que a demanda era justa, mas não tinha dinheiro no orçamento.

         Os prefeitos insistiam: o senhor está agindo como tecnocrata; esta não é uma decisão técnica, é política.

         Montoro: então, está feito; politicamente, o viaduto está decidido; quando tiver dinheiro a gente faz.

         Outra história exemplar: na reta final da campanha, já vitoriosa, o MDB passa a receber uma enxurrada de adesões. Certo dia, há um comício para receber líderes sindicais. Terminando o evento, os militantes mais ideológicos, digamos, questionam: esses caras aí são pelegos, estavam quietinhos até ontem.

         Montoro: bom, se a gente dividir o mundo em pelegos e não-pelegos, eles caem no lado dos pelegos. Mas o mundo não funciona assim.

         Então entra todo mundo neste ônibus?

         Entram muitos, respondeu, mas vamos lembrar durante o governo: esses aí não gostam da gente, muito menos de nossas ideias, gostam do poder.

         O início do governo Montoro foi difícil e tumultuado. Houve pesada oposição do PT, que dizia não haver diferença entre MDB e Arena, o partido do regime militar, e restrições administrativas e econômicas do governo militar. Além disso, a primeira gestão Montoro tinha de fato muitos românticos, mais do que operadores políticos.

         Isso foi balanceado - e a coisa andou. Inclusive com a políticas de municipalização e restrições ambientais, que funcjonaram. E com a horta que se cultivou no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo.

         Na política nacional, lançou as Diretas Já, romântico, e depois lançou Tancredo a candidato nas indiretas, pragmático.

         Fico pensando que o país precisa de mais políticos assim, com votos e valores.  



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domingo, julho 03, 2016

Artur Xexeo Em boca fechada O Globo

Às vezes, é melhor calar. Vivemos tempos de muitos mal-entendidos. O senador Renan Calheiros, por exemplo, está toda hora na televisão dizendo que “a crise não passa pelo Senado”. E acrescenta: “o Senado é a solução”. Agora, então me explica por que o nobre parlamentar está interessado em aprovar, em regime de urgência, uma lei que dificulta a realização de grampos telefônicos, invalida boa parte das delações premiadas, enfim, que dá um freio na Operação Lava-Jato? Certamente, ele não está falando em nome da sociedade. Parece mais preocupado com as denúncias contra o próprio senador. E, por mais que os repórteres que entrevistam Renan tentem associar seu novo projeto de lei à Operação Lava-Jato, ele insiste que uma coisa não tem nada a ver com a outra. Tá vendo? É o mal-entendido. Então, melhor calar. 
Só pode ser mal-entendido também o que dizem os advogados de defesa de políticos e empreiteiros que têm recebido acusações criminais ultimamente. As doações sempre são legais e estão registradas na Justiça Eleitoral, eles nunca têm conta no exterior, nunca usaram o caixa dois, a declaração comprometedora está tirada de contexto... Na quinta-feira passada, com a decretação da prisão preventiva do empresário Fernando Cavendish, os advogados do ex-dono da Delta não agiram de modo diferente. A defesa se disse “estarrecida” e garantiu que “tomará as providências judiciais para reverter essa ilegalidade”. Deixa eu ver se entendi: o Cavendish foi o empreiteiro responsável pela construção das quatro arenas esportivas dos Jogos Pan-Americanos, aquelas obras mal feitas, superorçadas, que mal resistiram ao Pan e, diante de sua prisão, quem fica estarrecida é a sua defesa? Mas este é mais um caso no qual o melhor é ficar calado. Na sexta-feira, a prisão preventiva já tinha se transformado em prisão domiciliar. Fica aqui uma pergunta que não quer calar: será que o domicílio de Cavendish foi construído pela Delta? Porque, se foi, talvez ele estivesse mais seguro na cadeia mesmo.
Tem também o presidente provisório. Michel Temer é o rei do fica o dito pelo não dito. Ele assumiu sua interinidade apostando em austeridade fiscal. Um mês depois aumenta o Bolsa-Família e aumenta o vencimento dos ministros do Supremo Tribunal Federal. Nada contra mais dinheiro para todos, mas geralmente novos gastos não combinam com austeridade. Foi um mal-entendido?
É por isso que, nestes tempos difíceis, o melhor é ficar quieto. Qualquer coisa que você diga pode ser mal interpretada e você vai acabar passando por mentiroso. O governo de Francisco Dornelles prometeu pagar o que deve de salário ao servidores nesta segunda-feira. Mas ele estava falando do salário de maio. Nesta segunda, o governo já estará devendo também o salário de junho. Não há mal-entendido maior no momento do que a maneira de o Governo do Estado interpretar o que significa um salário. Além de não pagar o que deve, ele não tem repassado para os bancos o que desconta dos empréstimos consignados dos servidores. Roubo? Não... É só um mal-entendido.
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Não é fácil para mulher alguma entrar numa delegacia e denunciar o marido, o namorado ou o companheiro como autor de violência que sofreu. Para uma mulher famosa, então, fica ainda mais difícil. Dos muitos constrangimentos pelos quais passa uma mulher numa situação dessas, a exposição pode machucar quase tanto quanto quatro costelas quebradas. Luiza Brunet construiu uma carreira de modelo de muito sucesso, que se prolonga agora com a de empresária e, mais recentemente, com tentativas de ser atriz. Durante toda a sua trajetória, soube manter a vida privada longe das colunas de fofocas. 
Às vezes, apertada nos modelos de jeans da Dijon cobertos de tachas de gosto duvidoso, ela era a única garantia de o produto à venda não se tornar vulgar ou cafona. Luiza Brunet foi sempre discreta. Esta característica só dá mais valor à atitude que levou seu nome aos jornais neste fim de semana. A notícia publicada pela coluna de Ancelmo Gois dando conta da violência que sofreu na casa de seu companheiro não mostrou só o sofrimento pelo qual Luiza tem passado. Mostrou a coragem de uma mulher que sabe que seu caso vai servir como exemplo. Ela tem consciência de que pode ser um modelo para outras mulheres que, sem a sua celebridade, sofrem a mesma violência doméstica. A exposição é consequência.
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Os integrantes daquele grupo alegre, a turma do guardanapo, que ganhou destaque em fotos que se seguiram a um celebrado jantar em Paris, está todo voltando a cena. Mas... cadê o Sérgio Cabral?

sábado, junho 18, 2016

Infraestruturas, financiamento e governo JOSEF BARAT



Infraestruturas, financiamento e governo
JOSEF BARA. Estadao

A partir de 1995, ocorreu uma profunda revisão do papel do Estado, com a abertura dos investimentos e operações das infraestruturas de serviços públicos à participação privada. Isto se deu por meio das concessões e parcerias e foi importante a criação das Agências Reguladoras para controle e fiscalização das concessões. Avanços significativos foram alcançados, tanto em volumes de investimento, quanto em aumentos de produtividade e qualidade nas operações dos serviços concedidos.
As deficiências físicas e operacionais, acumuladas por décadas, impuseram grandes dificuldades e obstáculos para que o Brasil se tornasse mais competitivo no mercado mundial, reduzisse o custo do abastecimento interno e propiciasse mais eficiência às tomadas de decisão dos agentes econômicos. O fato é que muitos gargalos e as crônicas ineficiências nas infraestruturas de transporte, energia e comunicações só começaram a ser superadas após as concessões e os aportes de recursos privados. 
No entanto, os governos Lula e Dilma não aproveitaram o ciclo de crescimento baseado nos preços das commodities, para estimular novas concessões. Além disso, mudanças na política econômica a partir de 2009 impuseram ações mais intervencionistas, o abandono dos fundamentos macroeconômicos e a insegurança devido à politização das agências reguladoras. Tal ambiente afugentou o aporte de capitais privados para investimentos nas infraestruturas. O retorno ao modelo Nacional-Desenvolvimentista dos anos 70, resultou em recrudescimento da inflação, queda dos investimentos públicos, ambiente de incertezas para os investimentos privados e afastamento dos fluxos de financiamento mundial.
Por outro lado, o drástico declínio dos investimentos públicos agravou, em muito, as já precárias condições das rodovias, portos, aeroportos e saneamento, entre outras, que não apresentavam interesse para o capital privado. Ou seja, ficou-se por muito tempo no pior dos mundos: o governo “desenvolvimentista” sem recursos para investir em infraestruturas essenciais e seu viés intervencionista – nos poucos editais de concessão que fez – afugentando investidores. No afã de interferir na fixação nas tarifas e taxas de retornos, via de regra selecionou os consórcios menos capacitados.
Para completar este quadro desolador, o modelo de associação entre grandes empreiteiras, fundos de pensão das estatais e BNDES, para viabilizar os consórcios licitantes, simplesmente desmoronou. A operação Lava-Jato, atingiu gravemente as empreiteiras, a quebra de muitos fundos e os limites do BNDES como única fonte de financiamento de longo prazo, obviamente inviabilizou a continuidade deste tipo de governança. Desnecessário dizer que, diante das incertezas e do rebaixamento do país pelas agências de risco, o capital privado externo – abundante no mundo – buscou países mais seguros para investir no longo prazo.
Portanto, o momento agora é o de pensar em um novo modelo de governança capaz de atrair o interesse do capital externo e dos bancos para este tipo de investimento. É obvio que empreendimentos privados por meio de concessão, com maturação e retorno de longo prazo, exigem um ambiente de credibilidade nas ações do governo – em especial, os fundamentos econômicos –, segurança jurídica e estabilidade política. 
Para restabelecer um ambiente de confiança é preciso mudar a lógica da governança dos processos de concessões e parcerias. Com isto, pode-se atrair capitais privados estrangeiros provenientes de uma gama de fundos interessados em retornos de longo prazo, quais sejam, fundos de investimentos, de pensão, de seguradoras, entre outros. É hora de o Brasil adotar uma nova agenda externa, relegando ao segundo plano alianças insignificantes e se reintegrar ao mundo que compete, comercia, inova, investe e forma grandes alianças transcontinentais. É hora, sobretudo, de se reintegrar aos grandes núcleos mundiais de decisão e negócios. Sem isso, continuaremos estrangulados pelos gargalos nas infraestruturas e patinando na mediocridade...

sábado, junho 11, 2016

Lula e Mercadante na cadeia! Reinaldo Azevedo

Folha de S Paulo

A semana que termina foi a mais obscurante –sim, a palavra existe!– da política brasileira desde que teve início a Lava Jato.
Nem sempre, e eu o apontei quando considerei pertinente, os homens de negro atuaram em terreno legalmente prudente. Mas, desta feita, foram além do limite que separa o Estado de Direito do arbítrio e do abuso de autoridade. E que fique claro: apoio a operação para que ela contribua com o fim da impunidade. E isso só se fará nos limites da lei.
Não serei eu a negar que existam razões para mandar prender os senadores Renan Calheiros e Romero Jucá e o ex-presidente José Sarney. Se existem, não são aquelas que vazaram dos diálogos gravados por Sérgio Machado. No que veio a público até agora, não há crime nenhum. Há no que não veio? Como saber? Se temos ciência do pedido, deveríamos conhecer as causas.
Também é um despropósito que dez ministros do STF sejam informados pela imprensa de que Rodrigo Janot quer prender o presidente do Congresso e um ex-presidente da República. Não existem Poderes soberanos na democracia –e isso inclui o Ministério Público Federal, que Poder não é.
Infelizmente, a esmagadora maioria da imprensa se calou a respeito. Os colunistas que se fizeram notáveis e notórios por atacar a Lava Jato não deram um pio. Eles são contra exageros apenas com os de sua turma. Uns verdadeiros moralistas!
A propósito: por que Janot, pelos mesmos motivos, não pediu a prisão de Lula e de Aloizio Mercadante?
"Obscurante" é tudo aquilo que nos priva de luz. E, por óbvio, também o jornalismo tem sido, a cada dia, mais vítima de ardis que lhe tiram a clarividência e o fazem flertar com as três Górgonas da inteligência: o esquerdismo, a demagogia e o oportunismo.
O esquerdismo é nefasto porque corrói a honestidade intelectual. Quem acha que a justiça deve se sobrepor à precisão merece levar chicotadas metafóricas. Em vez de escrever, deveria se dedicar à revolução ou à caridade. "Sarney, Renan e Jucá? Danem-se! Todos reaças mesmo e do PMDB! Cadeia neles!".
Quem acaba de entender que eu criei uma contradição entre jornalismo e justiça já está perdido. Que vá pra rua babar o "não-vai-ter-golpe".
A demagogia é o conforto dos falsos puros. Confere a seus usuários certo ar de coragem militante, com soluções tão mirabolantes como erradas. É o refúgio da covardia. Entre o ruim e o menos ruim, o demagogo escolhe o impossível, mas com potencial para inflamar os desinformados. "Que tal novas eleições, já que está tudo dominado?".
E o oportunismo completa a obra obscurante e obscurantista ao fazer do contingente o imanente, ao confundir os meios com o fim, ao dar à circunstância o valor da perenidade. Exemplifico, claro!
Ao defender novas eleições (demagogia oriunda do esquerdismo), aproveitando a onda criada pelos pedidos de prisão, Marina Silva deu à luz a seguinte pérola: "A grande contribuição que a Lava Jato vai dar é fazer uma reforma política na prática, já que ela não sai pelos processos políticos". É uma fala fascistoide. Desde quando uma reforma política se faz na delegacia de polícia?
A democracia, à diferença dos que pensam alguns tontos, não aceita todos os desaforos. Não estou ameaçando com o risco de uma ditadura. Não virá. Há coisa ainda pior: a bagunça.

sábado, junho 04, 2016

Patrulha recatada e do lar, por Guilherme Fiuza, O Globo Noblat

Patrulha recatada e do lar, por Guilherme Fiuza, O Globo Noblat

Patrulha recatada e do lar

Guilherme Fiuza, O Globo

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Temer deu posse a Maria Silvia na presidência do BNDES. Silêncio na patrulha progressista.

Explicando melhor: o presidente Michel Temer empossou na presidência do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, o maior orçamento público do país, a economista Maria Silvia Bastos Marques, executiva de renome consagrada no Brasil e no exterior.

Silêncio sepulcral na claque progressista, humanitária e feminista.

Tentando de outra forma: o BNDES, um dos maiores bancos de desenvolvimento do mundo, alvo de vários inquéritos sobre tráfico de influência do PT, com destaque para as tramoias do ex-ministro Fernando Pimentel para eleger Dilma Rousseff, e de Lula para alegrar suas empreiteiras de estimação, foi colocado por Michel Temer nas mãos de uma executiva séria e brilhante, que vai combater a farra com o dinheiro do contribuinte.

Outrora febril, a patrulha progressista, agora recatada e do lar, vira-se de lado e dorme. Quando alguém tenta despertá-la, ela pergunta sonolenta: mas e o Cunha?

Se já era difícil explicar o que o Cunha tem a ver com as calças, que dirá com as saias. Melhor não contrariar. Para os brasileiros da resistência democrática, irmanados à quadrilha de Dilma e Lula contra os golpistas, mulher de verdade é Erenice, Gleisi, Ideli, Rosemary, Rosário, Graça, Belchior e as demais heroínas que fizeram história na Era Rousseff. Gosto não se discute.

Melhor passar à próxima notícia: Michel Temer empossa Pedro Parente na presidência da Petrobras. Silêncio ensurdecedor na patrulha moralizadora contra o novo governo.

Em se tratando de moral, vale explicar com paciência: o governo dos abutres que vieram atacar os cordeiros indefesos do PT colocou um dos melhores executivos do país, reconhecido nacional e internacionalmente, para gerir a empresa usada por Lula e Dilma para patrocinar o maior escândalo da história da República.

Alguém cometeu de novo a indelicadeza de acordar a patrulha do bem, exausta da luta sem tréguas contra os conservadores malvados, e a reação veio na bucha: mas e o Cunha?

Aí Michel Temer demite sumariamente os suspeitos de seu governo. Um careta, conservador, que não tem noção de solidariedade. Dilma nunca fez isso. Sempre procurou manter seus picaretas de fé a salvo, como é o caso do supracitado Fernando Pimentel. E jamais negou apoio público aos companheiros mensaleiros e aos guerreiros do povo brasileiro presos no assalto à Petrobras.

É aí que mora o perigo, bravos democratas que resistem contra Temer: vocês não podem aceitar assim, de bico calado, a entrega escandalosa da Petrobras a Pedro Parente.

Vocês já pensaram nas consequências disso? Quantos doleiros e tesoureiros progressistas ficarão à míngua? Quantas eleições presidenciais e parlamentares deixarão de ser compradas, desempregando milhares de funcionários de gráficas fantasmas, agências de publicidade de fachada, marqueteiros espertos e jornalistas de aluguel, fora a crise no mercado da mortadela?

Vocês não devem estar se lembrando quem é Pedro Parente, caros gladiadores da resistência democrática. Então compreendam a gravidade da coisa: quase 20 anos atrás, Pedro Parente foi um dos principais guardiões da implantação de uma barbaridade chamada Lei de Responsabilidade Fiscal. Não estão ligando o nome à pessoa? Ora, bravos guerreiros do bem, foi essa maldita excrescência que derrubou a nossa impoluta presidenta.

Entenderam o golpe? Pedro Parente, colocado pelo governo branco, velho e conservador de Temer para tomar conta da maior empresa nacional, tramou a queda de Dilma lá atrás, nos anos 90. Esses golpistas pensam em tudo.

Junto com a gangue que fez o Plano Real (página infeliz da nossa história, passagem desbotada na memória), esse ardiloso previu que um dia os companheiros chegariam ao poder, e criariam uma maravilha chamada contabilidade criativa — que é você conquistar a liberdade de gastar sem culpa o dinheiro dos outros.

E foi assim que Dilma caiu. Só porque foi flagrada fraudando a responsabilidade fiscal para manter os bonzinhos no poder, isto é, roubando honestamente — o que para os brancos, velhos, chatos, bobos, feios, recatados e do lar, é crime.

Esse talvez tenha sido o golpe mais doloroso. Se você e o seu grupinho depenam a Petrobras para enriquecer a elite vermelha, a polícia descobre tudo, e você cai por causa por causa de uma fraude fiscal — praticamente um roubo de galinha perto das obras completas —, tem que reclamar mesmo. Era só o que faltava a autora de tal façanha passar à história pedalando. Mais respeito, por favor — como pediu aquele pessoal simpático em Cannes.

Também não é para desesperar. O companheiro Al Capone passou pelo mesmíssimo problema. Um dos maiores gangsteres da história, já ia passando aos livros como um reles sonegador fiscal. Mas a resistência democrática contra o golpe trabalhou bem lá em Chicago, e Capone hoje é reconhecido mundialmente em toda a sua magnitude. Isso há de acontecer também com Dilma, Lula e o PT. Não esmoreçam.

Silêncio (Foto: Arquivo Google)

Guilherme Fiuza é jornalista



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sábado, maio 21, 2016

PMDB precisa mostrar que tem como liderar o país, diz FHC - 21/05/2016 - Poder - Folha de S.Paulo

PMDB precisa mostrar que tem como liderar o país, diz FHC - 21/05/2016 - Poder - Folha de S.Paulo

PMDB precisa mostrar que tem como liderar o país, diz FHC

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso acha que o desempenho do presidente interino, Michel Temer, nos próximos meses será crucial para determinar se o PMDB terá condições de liderar o país à frente de um novo bloco de poder, como petistas e tucanos fizeram antes dele.

Para o líder do PSDB, a recessão na economia e a fragmentação política do Congresso limitam as possibilidades do novo governo, e o futuro do PMDB dependerá da maneira como Temer lidar com essas dificuldades.

"Ele pode dar sinais para a economia, mas vai demorar para colher o fruto", diz FHC, que lança na próxima semana o segundo volume do seu "Diários da Presidência" (ed. Companhia das Letras), com memórias do biênio 1997-98.

Na opinião do ex-presidente, o PMDB "tem capacidade para fazer o Estado funcionar", mas ainda não demonstrou "capacidade de apontar o rumo" para o país, como ele explica na entrevista a seguir.

Fernando Henrique comentou ainda as denúncias de compra de votos para aprovar a emenda constitucional que permitiu sua reeleição em 1998.

*

Folha - Ao descrever pressões que recebia do PMDB por cargos em seu governo, o sr. diz a certa altura dos seus diários que elas estavam "cheirando mal". Qual era o problema?
Fernando Henrique Cardoso - Eu fiquei irritado com a pressão, que achei muito grande, desproporcional. Queria manter a autonomia de escolha do presidente frente aos candidatos, aos partidos. Consegui no primeiro mandato, relativamente.

É mais difícil para Temer lidar com esse tipo de pressão?
Eu tinha mais força pessoal, e legitimidade, porque fui eleito. Segundo, eu tinha uma agenda, um objetivo que justificasse a aliança política. A grande diferença é que não havia um sistema partidário tão fragmentado como o atual. E você podia fazer uma maioria um pouco mais consistente no Congresso. Essa fragmentação vai continuar.

Como isso afetará o governo?
A nomeação do novo líder na Câmara [André Moura (PSC-SE), réu no Supremo Tribunal Federal] é fruto disso. PSDB e PT foram os dois partidos que até aqui conseguiram liderar o processo político sem ter maioria, com apoio do PMDB. A maioria sempre foi formada por uma massa useira e vezeira em utilizar o aparelho do Estado, como esse novo centrão de que estão falando agora.

O PMDB é diferente?
O PMDB não é isso. É um partido que tem capacidade para fazer o Estado funcionar. Agora está tentando ter uma certa capacidade de apontar o rumo. Fizeram um programa [o documento "Uma Ponte para o Futuro"]. É uma novidade, porque implicaria na transformação do PMDB em um partido com aspiração para liderar o país.

Acha o projeto viável, diante da composição do novo governo e de seus primeiros passos?
Este governo nasceu por decisão do Congresso, de acordo com a Constituição. Temer foi eleito como vice, tem legalidade. Mas não tem apoio [popular]. Não pode descuidar desse ponto de partida, porque o processo de impeachment ainda não acabou. Tem que ser cuidadoso, inclusive nas nomeações. Ele é mais amarrado a essas circunstâncias do que eu era, ou do que [o ex-presidente] Lula.

Significa que o novo governo também ficará paralisado?
Vai depender do que ele fizer com a crise econômica e a crise moral. Ele precisa emitir sinais de que levará o país a um caminho melhor na economia e que dará prestígio à Operação Lava Jato. Ele não terá tempo de resolver os problemas da segurança, da educação, da saúde, do transporte. Pode dar sinais para a economia e a infraestrutura, mas vai demorar para colher o fruto. Você não pode cobrar deste governo o que ele não pode dar. É um governo de transição. Se ele chegar a 2018 começando a botar em ordem esses pontos, é o que historicamente precisa fazer.

As pessoas que apoiaram o impeachment pensando que as coisas iam mudar no dia seguinte não ficarão frustradas?
A população é suficientemente realista para não pedir o impossível. Ela não saiu na rua gritando: "Viva Temer". Saiu gritando: "Fora, Dilma". As pessoas não têm uma expectativa tão elevada assim para se sentirem frustradas.

O que achou do ministério?
Eles são bons operadores políticos. Na economia, montaram uma equipe consistente. Não sei dizer como é a capacidade gerencial dos vários ministérios, porque não conheço. Mas não acho que se possa dizer que está tudo perdido logo na partida. A situação é que é muito difícil.

Temer terá condições de fazer a reforma da Previdência?
Vão chorar por não terem ajudado a aprovar lá atrás no meu governo, quando a idade mínima para as aposentadorias caiu por um voto. Talvez já exista maturidade para obter algum avanço. O motor da reforma tem que ser a busca de um sistema mais equânime, que pode trazer uma situação fiscal melhor como consequência. Não podem dizer que estão fazendo isso só porque o Tesouro está mal.

O novo governo representa uma guinada conservadora?
Ele nasceu no Congresso, e o Congresso hoje é mais conservador, porque a sociedade ficou mais conservadora. É importante para o PSDB não entrar nessa. Temos que ser sociais-democratas nas relações entre sociedade, mercado e Estado, e liberais no comportamento, aceitando a diversidade. Mas a sociedade não pensa assim, e tem que dar a batalha nesse sentido.

Com três ministros e ex-integrantes do seu governo no comando do Banco Central, da Petrobras e do BNDES, os tucanos têm como se dissociar do governo se algo der errado?
O partido está comprometido, mas não é o núcleo do poder. O poder é do PMDB, que legitimamente vai buscar protagonismo. Vai querer ser o motor do próximo passo. Por enquanto, tínhamos PT e PSDB. Agora, talvez o PMDB queira. Vai depender de quem tiverem na eleição [presidencial de 2018]. Tudo passa pelo personagem, quem é o candidato, como é que fala, se vai captar o sentimento do futuro... Sabe Deus.

Claudio Belli - 19.mai.16/Valor/Folhapress
Data: 19/05/2016 Editoria: Politica Reporter: Cesar Felício dos Santos Local: Sao Paulo Setor: Politica Pauta: Entrevista com FHC Personagem: Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente da Republica do Brasil Tags: presidente, ex-presidente, iFHC, instituto, politica, Brasil Fotos: Claudio Belli/Valor ***FOTO DE USO EXCLUSIVO FOLHAPRESS***
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em seu instituto


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FH ENTREVISTA O GLOBO

FH: líder de Temer é insustentável

Em entrevista pelo lançamento do segundo volume de "Diários da Presidência", o ex-presidente FH disse que o Legislativo não pode "montar no cangote" de Temer e que o novo líder do governo, imposto por Eduardo Cunha, é "insustentável"

'Não pode deixar o Legislativo montar no cangote do Executivo'

• Ex-presidente classifica de 'insustentável' escolha do novo líder do governo; e diz que PSDB não pode ser confundido com o partido do poder

Silvia Amorim - O Globo

SÃO PAULO- Na semana em que o presidente interino Michel Temer cedeu à pressão de pequenos partidos da Câmara para nomear um deputado réu em ações penais como líder do governo, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso disse em entrevista para falar de seu novo livro "Diários da Presidência - 1997 a 1998" que um presidente "não pode deixar o Legislativo montar no cangote do Executivo".




• No livro, o sr. fala da aprovação da reeleição, denúncias de compra de voto, crises internacionais e a eleição. Foi o período mais difícil da sua gestão?

1998 foi o mais difícil e 1999 também. Tinha a crise da Rússia, a situação econômica piorava gradativamente e tínhamos eleição. Havia muita gritaria sobre desemprego e muita pressão política.

• O sr. disse ao GLOBO que ministro que se tornar réu tem que ser afastado. Nesta semana, Temer nomeou para líder do governo na Câmara o deputado André Moura (PSC-SE), que é réu em três ações penais, e o PSDB não se opôs.

(A nomeação) é insustentável. Eu não acompanhei, mas reclamaria.

• Na negociação com o PMDB para nomear Eliseu Padilha (atual titular da Casa Civil) como seu ministro, o sr. diz no livro que a pressão estava "cheirando mal". O que quis dizer? 

Eu não tinha nada contra o Padilha. O problema era a forma. Era um "tem que ser, tem que ser''. Não gostei. Você não pode deixar o Legislativo montar no cangote do Executivo, porque este corcoveia e tem que se equilibrar senão cai.

• É a situação do Temer? 

Não. Ele está tentando manter os partidos agrupados porque tem votação de impeachment. Ele não tem outra alternativa porque precisa do Congresso mais do que eu e o Lula precisamos. Mudou a pessoa lá de cima mas o sistema político não foi quebrado.

• Temer tem força e disposição para uma reforma política?

Espero que sim. Mas não podemos esquecer que é um governo de transição. Para levar adiante muitas das transformações necessárias é preciso alguém com voto, força e agenda.

• Após 13 anos o PSDB deixa de ser oposição, mas sem ser governo. O sr. já disse "esse governo não é nosso". Essa crise de identidade não pode levar a uma perda de protagonismo dos tucanos na eleição?

Esse é um ponto delicado porque até hoje o jogo partidário no Brasil se deu entre PT e PSDB. Agora o PMDB começa a querer entrar. Ou o PSDB volta a afirmar alguns propósitos programáticos ou ele vai ser confundido com o partido do poder. É uma operação delicada porque o PSDB não pode deixar de ajudar a transição e tem que olhar a sucessão de 2018. Nesse momento estamos com muitas dúvidas sobre quais vão ser os polos aglutinadores do futuro.

• Não tende a ser PT e PMDB? 

Isso vai depender da capacidade do PSDB de ter um projeto. O que não pode deixar é se dissolver no marasmo da política do toma la dá cá. Não importa o que digam, é melhor estar em cima do muro do que cair na lama.

• Quais mudanças defende para a Previdência? 

Defendo que para algumas categorias de trabalhadores haja uma idade mínima menor para a aposentadoria. Agora, é irracional mulher se aposentar mais cedo se vive mais do que o homem. Não acredito que uma reforma completa que atenda às finanças vai ser aprovada.

. Fernando Henrique Cardoso Estadao

Entrevista. Fernando Henrique Cardoso

'Se o governo for para o lado errado, PSDB sai', diz FHC

• Ex-presidente, que lança segundo volume de 'Diários', diz que Serra se fortalece para uma nova candidatura ao Planalto

Pedro Venceslau e Tonia Machado - O Estado de S. Paulo

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso avalia que o tucano José Serra, atual ministro das Relações Exteriores, se fortaleceu rumo a uma candidatura à Presidência em 2018. "Serra foi lá, tomou posição e se projetou. Ele ganhou mais força. Mas 2018 ainda está longe."

No segundo volume de seu Diários da Presidência, que será lançado na próxima semana, FHC comenta a relação com o PMDB em seu governo. Em entrevista ao Estado, ele chama de "mito" o caso da compra de votos pela PEC da reeleição, que também é abordado no livro. Com o PSDB na base da gestão peemedebista de Michel Temer, FHC vê o sinais se inverterem e diz que o tucanos podem deixar o governo se ele "for para o lado errado".



• O PMDB sempre pressionou os governos por cargos. Temer será pressionado pelos tucanos?

O PSDB tem três ministérios, mas muitos partidos da base atual já estavam antes no governo e estão aumentando sua participação. O PSDB vai ficar um pouco nervoso com isso. Relativamente, o partido vai ficar com muito menos que os outros. Mas não acho que o PSDB vai recuperar poder simplesmente tendo cargos no governo. Poder se recupera com mensagem. Se o governo for para um caminho que achamos errado, então o PSDB sai. O governo é destino inevitável para quem participa do atraso. Se o PSDB se confundir inteiramente com a política, ele vai ter problemas. Isso vale para o governo. O presidente Temer tem que negociar com o Congresso, mas ter cuidado e explicar isso para a sociedade.

• O sr. diz no livro que a pressão do PMDB por cargos cheirava mal. Por quê?

Havia muita pressão, sobretudo sobre o Sérgio Motta (ex-ministro das Comunicações). Brigavam muito com ele. Falei nesse sentido. Queriam me impor e eu não queria isso. O que eu crítico é o estilo do 'tem que dar'.

• O sr. aborda no livro a suspeita de compra de votos para a emenda da reeleição, em 1997. A posse do Eliseu Padilha e do Iris Rezende, ambos do PMDB, no seu governo aconteceu logo depois da aprovação da PEC...

Mas não há nenhuma relação, pois eles eram todos favoráveis. A PEC da reeleição no Senado foi uma barbada: 80% a favor. Criaram um mito, que é a compra de votos. Houve acusações. Dois denunciaram. Mas quando a informação chegou a mim, eu disse para cassar logo o mandato. Não tínhamos nada a ver com aquele negócio. Não precisava. Todos os editoriais de jornais eram a favor. E as pesquisas idem. Os que eram contra eram candidatos à Presidência: o Maluf e o Lula. Eu custei a aceitar a ideia de reeleição para mim. Tinha muitas dúvidas se valia a pena. É muito duro governar.

• No primeiro volume, o sr. diz que Temer era um político "dos mais discretos", mas também tinha seus interesses...

Sim, como todos os políticos. Isso é uma coisa que as pessoas precisam entender. Ele (Temer) até me telefonou dizendo que não se lembrava do episódio que o Luís Carlos Santos me pediu (uma nomeação). Mas isso é uma coisa normal. É do jogo partidário. Todos fazem negociação.

• Por que o sr. resistiu a nomear o Padilha?

Era um bom rapaz, mas eu não gostava da maneira que eles estavam pressionando.

• O José Serra estava em uma posição periférica no PSDB em relação ao Geraldo Alckmin e ao Aécio Neves que, como ele, pretendem disputar a Presidência em 2018. Agora que está no Itamaraty, ele ganhou mais força para ser o candidato tucano?

A medir pelas semanas iniciais, sim. Ele tomou posição. Eu sempre digo que o problema dos nossos partidos é não tomar partido. Serra foi lá, tomou posição e se projetou. Ele ganhou mais força. Mas 2018 ainda está longe.

• Na posse no ministério, Serra disse que a política externa do governo anterior seguia a ideologia de um partido. Concorda?

A política externa anterior não era tão diferente do que foi a minha. Alguns analistas mostram que a diferença era mais de tom. Mas eles (Lula e Dilma) criaram uma rede partidária (nas relações internacionais). Por isso houve perda de espaço para o Brasil na América Latina e a predominância do chavismo.

• A OEA criticou o processo do impeachment. O que achou?

O secretário-geral da OEA diz que houve golpe. A Unasul também. Isso é um dano para o Brasil e deve ser recuperado.

• O que achou da repercussão internacional negativa sobre o impeachment em veículos de imprensa como o New York Times?

O PT criou uma narrativa do golpe que pega mais lá fora do que aqui dentro. Para os objetivos deles, esse discurso foi bom, mas não se sustenta com o tempo. Essa é uma narrativa que confunde, pois ela é fácil e não precisa explicar muito. Você viu o que houve no Festival de Cannes? Aquilo repercutiu momentaneamente, mas a presidente está na casa dela (no Palácio da Alvorada). Dilma ainda será Presidente da República até que o Senado vote a decisão final. São precisos 3/5 dos votos para sair em definitivo. É muito difícil. Por que o NYT fez isso? Porque a Constituição dos EUA é diferente da brasileira. Nos EUA o perjúrio dá impeachment e ela não cometeu perjúrio, mas cometeu crime de responsabilidade

• Parte do PSDB acha que Dilma não poderia continuar morando no Alvorada nesse período de 180 dias. Qual a sua opinião?

Ela deve ficar lá. Dilma é presidente até que o Senado decida o contrário. Essa visão é mesquinha. Ela merece pessoalmente o meu respeito.

• Esse centrão que está se formando no Congresso pode levar o PSDB a ser coadjuvante?

Ou o contrário. O PSDB pode ser opor a isso. O PT e o PSDB tiveram uma polarização desnecessária. Por razões eleitorais o PT achou que o inimigo era o PSDB e nenhum dos dois foi majoritário no Congresso. Ambos tivemos que conviver com o atraso. Com Temer é a mesma coisa.

• O sr. fala no livro de um encontro com o Lula em 1998 no qual ele foi apresentar uma agenda. No final o sr. parecia animado...

Foi meio escondido. O Lula pessoalmente sempre foi mais aberto que o PT. Mas estranhamente o Lula, que foi oito anos presidente, me telefonou apenas uma vez (no governo dele) e foi para me convidar para o enterro do Papa (João Paulo II). Não tomei nem um café com ele. Minha atitude foi muito diferente. Ofereci uma casa para ele na transição, a Granja do Torto. Comi um churrasco com ele lá.

• Foi um erro do Temer montar um ministério só de homens brancos e sem mulheres?

Era melhor ter (mulheres). Os problemas identitários são cada vez mais presentes na agenda política contemporânea. É importante ter mulheres, negros e jovens. Mas não se pode pedir para um governo feito às pressas que tudo seja atendido. O sistema político, partidário e sindical é machista.

• A bancada do PSDB se colocou contra a recriação da CPMF e os tucanos não aprovam a criação de novos impostos. Será o primeiro confronto com Temer?

A CPMF ajuda a controlar o sistema financeiro. Algum imposto o governo terá que aumentar, pois o déficit é enorme. A arrecadação caiu e continuará caindo porque a economia não retoma.

• Há um debate no governo sobre se a reforma da Previdência valeria para quem já está no mercado de Trabalho ou só para quem vai entrar. O que o acha?

É lastimável que não tenham aprovado no meu tempo. Perdemos por um voto a idade mínima. Quando você olha a pirâmide etária e a questão da Previdência, é lógico que precisa trabalhar mais tempo. Quando perdemos a idade mínima, criamos o fator previdenciário. Derrubaram duas vezes e refizeram. Não tem como não fazer. O PSDB errou ao apoiar.

• Em São Paulo, Alckmin apoiou João Doria nas prévias da capital e isso causou um racha. O sr vai subir no palanque dele?

Nunca subi em palanque nenhum, nem quando era presidente. Fui favorável à (pré) candidatura do Andrea (Matarazzo) e pedi ao governador que mantivesse a neutralidade Ele insiste que não tomou partido, mas parece que tomou. Se tomou, criou um problema para ele mesmo. Eu disse para o Andrea não sair (do PSDB) e esperar a convenção. Se ele saiu, não posso apoiar quem está fora, A lei não permite. A situação é delicada.

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